O Instituto Socioambiental (ISA) e as organizações aglutinadas, participaram entre os dias 15 e 17 de abril em Brasília no Distrito Federal, da reunião anual do projeto Sociobiodiversidade Produtiva no Xingu, para discutir os resultados do primeiro ano do projeto e planejar as próximas ações.
O Projeto tem o financiamento do Fundo Amazônia (FAM) administrado pelo BNDES e as ações estão sendo executadas na Bacia do rio Xingu em 13 municípios nos estados do Mato Grosso e Pará.
O objetivo do Projeto é apoiar a estruturação e o fortalecimento das cadeias de valor da sociobiodiversidade na Bacia do Xingu, abrangendo sementes e mudas florestais, borracha, castanha, pequi e frutas, entre outros, junto às populações indígenas, extrativistas e agricultores familiares, visando ao aumento da qualidade de vida dessas populações e à produção sustentável, agroflorestal e extrativista.
Os representantes das organizações puderam trocar experiências durante a reunião. Cada organização apresentou os avanços já conquistados em suas ações. Uma realidade ficou bem clara: o elo de ligação entre as organizações parceiras é a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX), pois todas as ações estão diretas ou indiretamente voltadas para a produção, coleta e venda de sementes florestais, que geram renda e recuperam áreas degradadas.
Representantes relatam experiências
Conforme o senhor Assis Porto, presidente da Associação de Moradores da Resex do Rio Iriri (AMORERI), que fica em Altamira no Pará, a associação tem 80 famílias. Na Resex foram construídas com apoio do Projeto, quatro cantinas, que são locais de depósito de sementes florestais, óleo, castanha e borracha.
Com as cantinas, não é mais preciso o atravessador, que ficava com boa parte dos lucros. Agora os próprios extrativistas vendem a produção na cidade. Assis conta que isso foi possível graças a criação em 2006 da Resex e a construção das cantinas no ano passado: “Antigamente tinha alguém que se chama de dono de tudo isso aqui. Hoje todo mundo é dono de si”.

A Associação Agroflorestal Sementes da Floresta (AASFLOR) fica em Uruará no Pará e tem 29 famílias associadas. A comunidade recebeu mais uma barcaça, utilizada para secar sementes. Conforme a coordenadora do projeto Sementes da Floresta, irmã Ângela Saugen, são secadas sementes de andiroba, castanha, babaçu, ucuúba, entre outras. Depois de secas elas são trituradas para a extração de óleo, vendido no mercado local e regional.
“A construção dessa segunda barcaça trouxe mais renda para as famílias, porque agora eles conseguem processar mais sementes”, disse a irmã Ângela. Além da barcaça, a comunidade recebeu a instalação de um sistema de comunicação, chamado de telefone rural, o que facilitou a comunicação entre a associação e as famílias, algumas a dezenas de quilômetros da sede.
Na Associação Indígena Kisêdjê (AIK), na Terra Indígena (TI) Wawi, o projeto desenvolvido foi a plantação de pequi, que já ocupam 22 hectares. Com o pequi, a comunidade extrai óleo. “É uma experiência nova na comunidade. O pequi trouxe benefícios alimentares, usamos o óleo nas festas e também comercializamos, o que dá uma renda que é utilizada para a compra de equipamentos de uso da comunidade”, conta Pasi Suya, diretor de projeto da AIK.
No Parque Indígena do Xingu (PIX), através da Associação Indígena Moygu – Comunidade Ikpeng (AIMCI), foi construída uma casa para armazenar sementes florestais. Conforme o representante da associação, Pita Kekjrinpo Ikpeng, a coleta das sementes é realizada pelas mulheres indígenas. “O trabalho delas ajuda no reflorestamento da região e tem a parte financeira, recurso que elas utilizam para atender necessidades, como a compra de sabão e materiais de higiene, além de anzóis para a pesca”, relata.
Na Associação Comunitária Agroecológica Estrela da Paz (ACAEP), que fica no assentamento Brasil Novo em Querência no Mato Grosso, ainda será construída uma fábrica para produção de polpa de frutas. Segundo o associado Auri Afonso Kolling, a fábrica trará mais uma fonte de renda para o assentado. Atualmente, a cultura predominante no assentamento é a soja. “Não queremos que o assentado tenha apenas soja, porque soja requer um investimento alto e pode dar quebra, com o assentado ficando sem renda o resto do ano”, explicou.
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA), trabalha em projeto de certificação de produtos, parcerias comerciais e monitoramento. Para Helga Yamaki, do Imaflora, os extrativistas da Terra do Meio no Pará se engajaram mais nas atividades a partir do momento em que teriam uma maneira diferenciada para vender seus produtos, uma espécie de selo de origem. “Isso motiva eles a continuarem vivendo lá, mantendo seu modo de vida tradicional e tendo uma vida digna. Isso também é um serviço socioambiental, porque se ele continua vivendo lá, cuida da floresta”, disse.
Organizações parceiras
O responsável pelo projeto é o ISA e as 12 organizações aglutinadas são as seguintes: Associação de Moradores da Resex do Rio Iriri (Amoreri); Associação de Moradores da Resex do Riozinho do Anfrísio (AMORA); Associação de Moradores da Resex do Xingu (Amomex); Associação dos Moradores Extrativistas do Rio Iriri (AERIM); Associação Agroflorestal Sementes da Floresta (AASFLOR); Associação Comunitária Agroecológica Estrela da Paz (ACAEP); Associação Terra Viva de Agricultura Alternativa e Educação Ambiental (ATV); Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (ANSA); Operação Amazônia Nativa (OPAN); Associação Indígena Kisêdjê (AIK); Associação Indígena Moygu – Comunidade Ikpeng (AIMCI); e Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA).
(Por Rafael Govari – ISA; com informações do Fundo Amazônia)
