A forma mais econômica e eficiente para restaurar sua propriedade
A muvuca de sementes é uma mistura de sementes de ciclos
de vida e funções diferentes, estrategicamente formulada para
a restauração ecológica de áreas degradadas.
Genericamente, o termo muvuca foi popularizado como
uma forma de plantio. No entanto, a muvuca é uma parte do
processo atrelado à técnica de semeadura direta de sementes.
As vantagens da
muvuca de sementes:
Economicamente
mais barata
a semeadura direta de muvuca de sementes é uma das soluções mais viáveis para a restauração ecológica que conhecemos hoje, com custos de transporte, de implantação e de manejo mais baixos se comparados com outras técnicas conhecidas.
Ecologicamente
mais eficiente
o plantio por muvuca apresenta maior potencial de germinação
e menor taxa de mortalidade das
plantas, que crescem já adaptadas
ao solo e, com isso, tornam-se
mais resilientes.
Socialmente
mais justa
é em termos sociais que a muvuca revela sua maior preciosidade: pois pra fazer muvuca tem que ter semente e pra ter semente é preciso coletá-la. É aí que magia acontece!
Há uma ciência por trás da diversidade
e da quantidade de sementes
escolhidas em uma muvuca,
que vem se aperfeiçoando ao longo dos anos, a partir de experiências e pesquisas de organizações
como a Rede de Sementes do Xingu e outras redes de sementes do Brasil.
As espécies vegetais previstas na muvuca estão separadas conforme o extrato e o ciclo de vida
para simular o processo de sucessão que a própria natureza faz: primeiro, nascem as espécies
pioneiras, que vivem até um ano e desempenham o papel de adubação verde, impedindo o
alastramento do capim, fertilizando e fortalecendo o solo.
Depois, as plantas pioneiras morrem e deixam o espaço preparado para as secundárias,
cujo ciclo de vida se estende até 20 anos. Só então teremos as espécies tardias (de 20 a 100 anos)
e as clímax (acima de 100 anos), que serão a “floresta do futuro”.
Por que a muvuca é uma das soluções
para os problemas socioambientais
que enfrentamos a nível global?
A nível ambiental, a restauração ecológica com muvuca de sementes é muito interessante não só pela
sua eficiência – há uma densidade e diversidade considerável de plantas que, ao nascerem direto na
terra semeada, brotam com mais força e resiliência –, como também pela sua capacidade de agir em
sintonia com a Natureza. Isso porque a muvuca simula o que a própria natureza faz,
só que de forma acelerada.
Enquanto um processo de regeneração natural pode levar cerca de 200 a 300 anos para acontecer,
a muvuca reúne, em um plantio estrategicamente pensado, sementes com funções biológicas e ciclos
de vida a um só tempo distintos e complementares, dando condições para que uma área degradada
de pequeno, médio ou grande porte se re-estabeleça.
Do ponto de vista social, por sua vez, a restauração ecológica com muvuca proporciona uma
fonte de geração de renda com a floresta em pé para comunidades locais a partir da coleta e da
comercialização de sementes, valorizando a diversidade, os conhecimentos tradicionais e a
permanência na terra e no território.
Além disso, a cadeia socioeconômica que se abre a partir da coleta fomenta, ainda, treinamentos,
capacitações e trocas de saberes entre uma grande diversidade de agentes ligados a essa cadeia.
Plantio de muvuca de sementes na 4ª Expedição da Restauração Ecológica da Rede de Sementes do Xingu.
FOTO: Bianca Moreno/ISA e ARSX
Como funciona o plantio de uma muvuca?
A semeadura direta com muvuca de sementes pode se adaptar conforme o contexto do seu plantio.
Selecionamos aqui algumas das principais dúvidas de quem vai plantar sua muvuca pela primeira vez!
Quantas sementes são?
No geral, usamos entre 40 e 80 espécies na composição de uma muvuca, mas essa quantidade pode variar conforme o contexto e a intenção de cada projeto de restauração, levando em consideração questões como fitofisionomia (tipo de vegetação a ser restaurada), tamanho e condição da área.
Quais as maneiras com as quais
se pode semear uma muvuca?
A semeadura direta com muvuca de sementes pode se adaptar conforme o contexto do seu plantio.
É possível fazê-la tanto de forma manual, a lanço – seja em em covetas, linhas ou área total – quanto
de forma mecanizada (área total), com uso de trator e outros implementos agrícolas, como vicon ou
distribuidora de calcário. Nesse último caso, usa-se maquinário de fazendas e de agricultores para
semear sementes nativas com intuito de recompor a vegetação nativa.
E os cuidados durante o crescimento?
Após a semeadura das sementes, é muito importante acompanhar o estabelecimento delas. Por isso, prevemos
o monitoramento dos plantios para verificar a cobertura por espécies nativas e exóticas, a densidade
de plantas por metro quadrado, assim como identificar quais espécies estão se sobressaindo ou se
há falhas que precisam ser replantadas, enriquecidas ou mesmo refeitas.
O monitoramento inicial costuma acontecer depois de dois meses do plantio, seguido por outro no final do
primeiro semestre. Depois disso, os monitoramentos passam a ser anuais até que o plantio tenha de dois a
três anos de estabelecimento.
Nesse percurso, devemos realizar manutenções para assegurar o sucesso na recomposição da vegetação,
como capinas, roçagens ou mesmo o uso pontual de herbicidas seletivos para os capins.
O caminho das
sementes na Rede
Na Rede de Sementes do Xingu, o ciclo de trabalho é anual e é feito por muitas mãos: coletoras e coletores, técnicas e técnicos, além de pesquisadores, financiadores, proprietários de terra e empresários se encontram em diversos pontos da cadeia da restauração ecológica com muvuca de sementes.
Confira abaixo parte do nosso fluxograma de trabalho.
1. Organizar a coleta de sementes
Todos os anos, o primeiro passo do nosso trabalho é descobrir quantas sementes poderão coletadas no ano que se inicia.
Por isso, começamos com as mais de 700 pessoas coletoras de sementes da Rede se organizando para comunicar ao Corpo Técnico o “Potencial de Coleta” do ano.
Ao mesmo tempo, em nossos escritórios, o Setor Comercial faz contato com potenciais clientes para estipular a demanda do mercado deste mesmo período.
Então, unimos essas duas informações – capacidade de coleta e mercado – para gerarmos o Pedido de Sementes anual para os Grupos Coletores.
2. Coletar as sementes
Com o Pedido de Sementes organizado, os 24 Grupos Coletores se preparam para coletar as sementes encomendadas.
Como a Natureza é cíclica, a cada mês temos espécies diferentes sementeando.
Na Rede de Sementes do Xingu, nós coletamos apenas as sementes que já foram compradas, garantindo que toda a coleta gerará renda às pessoas coletoras.
Por isso, é muito importante fazer o seu pedido ainda no começo do ano!
3. Armazenar as sementes
Uma vez coletadas, nossas sementes são armazenadas em uma das três Casas de Sementes da Rede, localizadas nos municípios de Porto Alegre do Norte/MT, Canarana/MT e Nova Xavantina/MT.
Cada Casa de Sementes tem um ambiente controlado, seco, fresco e escuro.
A armazenagem segue protocolos: as sementes são pesadas e conferidas, incluindo tipo, beneficiamento e qualidade, e guardadas em dispensers, que facilitam a organização no dia a dia.
4. Analisar qualidade e comportamento das sementes
É também nas Casas de Sementes que separamos lotes de sementes para análise no Laboratório de Sementes da UNEMAT, no campus de Nova Xavantina.
“Nosso papel é avaliar a qualidade fisiológica e física de algumas sementes da Rede. Analisamos o teor de pureza e de água e fazemos o teste de germinação e de emergência em canteiros de areia”, explica Rodrigo de Goés, que por muitos anos coordenou o Laboratório de Sementes da UNEMAT.
É possível semear a muvuca de sementes utilizando o mesmo maquinário agrícola que outros plantios da agricultura convencional.
FOTO: Bianca Moreno/ISA e ARSX
A coleta de sementes, o Bem-Viver
e a permanência na terra
Por trás da muvuca, há toda uma cadeia de comunidades e territórios que se beneficiam com a coleta de sementes, uma iniciativa que gera renda, promove saúde e sensibiliza comunidades.
Além de representar uma atividade econômica que caminha de mãos dadas com a floresta em pé, contribuindo diretamente com a qualidade de vida de muitas mulheres, famílias e comunidades, a coleta de sementes inspira uma série de belezas pra quem sabe ver. Isso porque a semente traz conexão tanto para quem planta quanto para quem coleta!
Quem coleta sementes caminha atento às árvores, às flores e aos animais. E isso gera saúde física e emocional. A coleta de sementes é, ainda, um exercício de Educação Ambiental, capaz de resgatar culturas de proteção e cuidado dos territórios, restabelecendo práticas como o canto, a observação e os passeios pelo território.
“Coletar semente é um serviço que me distrai e me ensina outros jeitos de cuidar da Natureza. Eu não tinha isso de preservar uma área e hoje eu não quero cortar uma árvore. Quando eu vou pro mato coletar, demoro a voltar pra casa de tanto que eu gosto.”
– Dalvina da Conceição,
coletora do PA Manah, em Canabrava
“Pra mim, a maior importância de coletar semente é saber que um dia ela vai ser plantada em algum lugar. Tenho orgulho de fazer um trabalho tão bonito – coletar semente, sabendo que ela tá fazendo um bem enorme para o planeta. O que a gente faz com amor e com carinho nunca é em vão.”
– Cleusa Nunes de Paula, coletora da
Rede desde 2010 e elo do grupo Novo Paraíso
sementes nativas dentro da Rede de Sementes do Xingu:
