Os Xavante da Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé tentam manter as tradições que herdaram de seus antepassados, mas enfrentam desafios para conseguir os recursos da natureza para fazer suas casas, seu artesanato, para realizar seus rituais. A caça também está escassa e até água falta. Além disso, acredita-se que a água de alguns rios esteja contaminada com agrotóxicos.

Limite da Terra Indígena – de um lado soja, do outro a floresta tentando se regenerar
Os desafios são enormes, talvez até maiores do que foi conseguir recuperar a posse da terra que era ocupada por seus antepassados. A desintrusão de não índios da TI Marãiwatsédé terminou no início do ano de 2013, após a justiça dar a posse para os Xavante. É apenas uma etapa vencida, importante etapa, mas que não tem o fim em si mesma.
Os não índios saíram, mas os Xavante herdaram a TI mais desmatada da Amazônia Legal. Dos 165 mil hectares, localizados na região norte do Araguaia mato-grossense, mais de 104 mil hectares estavam desmatados na época da desintrusão. Os poucos mais de 40% que restaram de floresta ficam longe da aldeia, estabelecida na região mais desmatada.

O pensamento que se difundiu na sociedade é que existe pouco índio para muita terra. Este conceito nasceu devido a desinformação de como é a cultura indígena e está baseado em uma visão que prioriza o uso da terra para a produção agropecuária e o lucro econômico. Os Xavante utilizam a terra para extrair o alimento deles, não para produzir e vender.
Conforme a indigenista da Operação Amazônia Nativa (Opan), Maria Nahssen, os Xavante são tradicionalmente seminômades. “É um povo caçador e coletor”, falou. Antes da colonização da Região Xingu/Araguaia, os Xavante ocupavam uma área muito maior. As aldeias eram transferidas de local de tempos em tempos.
Dentro da organização social dos Xavante, os homens são responsáveis pela caça e proteção, pela manutenção dos rituais e cerimônias religiosas; as mulheres pelos afazeres familiares, coleta e plantio. Trabalhos bem definidos e uma rotina guiada pelas estações do ano e sustentada pelo que a natureza oferecia. Neste ritmo eles viviam, mudando de lugar, caçando, coletando… e prosperam pela Região.
Os Xavante praticavam um sistema agroalimentar, pois as roças também são compostas por espécies que se mantêm no sistema florestal por longo prazo. Baseada em um manejo prolongado e agroflorestal, os Xavante são também agricultores dado ao fato de que parte das espécies coletadas, como cará, inhames e batata doce, são espécies domesticadas para a coleta.
Conforme Sayonara Silva, consultora da Opan, a roça dos Xavante tinha uma função muito mais para obter produtos para os rituais, do que propriamente para alimentação. A sua base alimentar está baseada na caça e na coleta, sendo que parte dessa coleta se dá em roças plantadas por eles próprios. Mas se não há mato o suficiente, não há também animais e nem frutas.
Enclausurados em terras indígenas demarcadas, as aldeias quase não mudam de local. Sem caça e coleta suficientes para alimentar todos, sobrevivem com míseras cestas básicas enviadas pelo governo, que trouxe junto também o sedentarismo e muitas doenças. Mesmo assim a comida não é o suficiente e também falta assistência, principalmente médica.
Para que a aldeia consiga o mínimo de suprimentos tradicionais, é necessária a recuperação dos mais de 100 mil hectares desmatados. Porém, a situação é crítica, como explicou o indigenista da Opan Diego Schmith Gino: “Do ano passado para cá foi mais devastado do que regenerado”.
É isso mesmo que você leu. Depois da desintrusão, milhares de incêndios, além de impedir a regeneração, estão devastando o que resta de mato da Terra Indígena. Somente no último mês de Agosto, no auge da seca, os satélites do Inpe detectaram 1.200 focos de queimadas dentro da Marãiwatsédé, conforme análise feita pelo ISA (Instituto Socioambiental).

Muitos desses incêndios são criminosos. Basta ver o mapa e analisar a quantidade de focos que há dentro da Terra Indígena e ao redor dela. Os indígenas, assim como órgãos e forças federais, já flagraram pessoas ateando fogo em alguns pontos da Marãiwatsédé.
Buscar alternativas eficazes e viáveis para a recuperação da Terra Indígena mais desmatada da Amazônia Legal é um desafio. Isso deverá acontecer por meio da regeneração natural com auxílio das técnicas existentes, como o plantio mecanizado de sementes florestais. Mas o fogo tem impedido a regeneração natural, a alternativa mais barata. “Se der uma cessada nas queimadas, a gente acredita que em poucos anos a floresta estará grande novamente”, disse Diego.
Os Xavante culturalmente põem fogo na mata para fazer roça e caçar. Mas é um incêndio controlado e se for praticado de tempos em tempos, alguns estudos indicam ser benéfico para o equilíbrio do Cerrado. Porém a quantidade e a constância dos focos na TI em processo de regeneração e fragilizada, traz um desequilíbrio que está matando o que sobrou da vegetação.
Para o ano que vem, existe a expectativa de os Xavante ocuparem mais o território. Por enquanto, todos estão em apenas uma aldeia, que fica localizada em um extremo da TI. A dinâmica cultural Xavante propicia que as aldeias se fragmentem à medida que elas incham. No caso de Marãiwatsédé, a aldeia permaneceu unida por causa do perigo dos invasores.
Com a ocupação, poderá haver um maior controle do território e diminuir as invasões e os incêndios criminosos. Diminuindo os incêndios, enfim, a floresta pode se regenerar e oferecer uma perspectiva de vida diferente para as futuras gerações. Depois de conquistarem a terra, a luta dos Xavante continua.

As pastagens pegam fogo com muito mais facilidade
COLETORAS DE SEMENTES
Sem recursos naturais o suficiente e como a ajuda do governo é mínima, os Xavante da Marãiwatsédé estão buscando alternativas de renda para suprirem suas necessidades mais básicas. Só que isso precisa ser feito respeitando a cultura dos indígenas.
Uma alternativa que surgiu em 2011, foi criar um grupo de coletoras de sementes. Atualmente são 35 coletoras. A coleta neste ano rendeu apenas R$ 5.895,23, porém já foi mais que o dobro que o arrecadado em 2013, quando a renda foi de R$ 2.273,54, tornando-se uma importante fonte de renda para as famílias.
A indigenista Maria explicou que a coleta só não é maior por conta da devastação, e também por falta de transporte. “As áreas de floresta ficam longe da aldeia e eles não possuem locomoção para fazer esse deslocamento”, disse. Para o ano que vem está sendo planejada a realização de expedições para a coleta de sementes.
As sementes são entregues para a Associação Rede de Sementes do Xingu, com sede em Canarana/MT, que tem hoje 421 coletores associados espalhados pela Região Xingu/Araguaia e que comercializou neste ano mais de 26 toneladas de sementes florestais para a recuperação de áreas degradadas em todo o Brasil.
Para o ano que vem, através de recursos do FAM (Fundo Amazônia), estão previstas a construção de um viveiro de mudas e de uma casa de sementes na aldeia, além da aquisição de kits de beneficiamento de sementes. Capacitações para melhorar a eficiência também estão sendo programadas.
Diante de suas possibilidades, os Xavante já recuperaram um hectare de área degradada com o plantio de sementes a lanço. Até o final do ano estava previsto o plantio de mais três hectares. Com a coleta de sementes, os quintais das casas também estão cheios de árvores, principalmente frutas.

As coletoras: Maria das Graças, Lídia e Ana Maria, são três anciãs coletoras de sementes. A coleta é feita pelas mulheres Xavante. A foto foi tirada bem no centro da aldeia

Milho Xavante, uma semente de grande valor para os indígenas
(Por ISA – Instituto Socioambiental)
