Entre o final dos meses de fevereiro e março, a equipe técnica e a diretoria da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) realizaram 10 reuniões com grupos de coletores pelos municípios da região Xingu/Araguaia, no Mato Grosso. O objetivo foi a realização de avaliação das atividades de 2014 e planejamento das atividades de coleta deste ano.
Foram realizadas reuniões na cidade de Nova Xavantina com o grupo de coletores urbanos; no Projeto de Assentamento (PA) Jaraguá em Água Boa; no PA Macife em Bom Jesus do Araguaia; no PA Manah em Canabrava do Norte também com a presença do grupo do PA Fartura de Confresa; no P. A. Dom Pedro em São Felix do Araguaia; no PA Caeté de Diamantino; nos assentamentos PA 12 de Outubro e Zumbi dos Palmares no município de Cláudia; na aldeia Ripá da Terra Indígena Pimentel Barbosa; na Terra Indígena Marãiwatsédé; e no Território Indígena do Xingu.

Uma das reuniões foi com as coletoras e coletores do povo indígena Xavante, na aldeia Ripá, do Território Indígena Pimentel Barbosa
O planejamento e a entrega do potencial dos coletores são essenciais para que a Rede de Sementes se organize e consiga atender a demanda por sementes ao longo do ano, garantindo a distribuição do recurso gerado para os coletores.
As informações da lista de potencial são cruzadas com a lista de demanda, gerando assim uma lista de pedido para cada coletor. Essa organização feita pela equipe técnica da Rede dá garantia para os coletores e compradores que as sementes serão vendidas e entregues.
O planejamento exige grande conhecimento e organização dos coletores quanto aos períodos de produção de cada uma das mais de 250 espécies que a Rede de Sementes trabalha.
Participaram das reuniões a equipe técnica da Associação formada por Adryan Araújo Nascimento, Raylton dos Santos Pereira, Danilo Ignacio Urzedo e Sarah Domingues; além dos integrantes da diretoria, Cláudia Alves Araújo e Acrísio Luiz dos Reis.
Mudanças climáticas afetam produção de sementes nativas

Em 2014, os coletores enfrentaram grandes dificuldades para atender a demanda dos compradores, pois a produção ficou bem abaixo do esperado. Acredita-se que alguns dos fatores da diminuição na produção de sementes sejam as mudanças climáticas, como diminuição das chuvas e aumento das temperaturas, bem como o uso de agrotóxicos nas lavouras monocultoras.
Coletores relatam que árvores próximas às lavouras estão produzindo menos sementes e que tem ocorrido com frequência o abortamento de flores e frutos (maturação), consequentemente gerando menos sementes do que o esperado.
Eles também observam a diminuição do número de abelhas nessas áreas responsáveis pela polinização dessas espécies. Isso tem dificultado muito o planejamento das atividades de coleta.
Os coletores destacaram que o avanço das grandes monoculturas na região tem promovido uma diminuição de suas áreas de coleta de sementes (ACS).
Árvores matrizes que ficavam em áreas de pastagens próximas aos coletores e que eram visitadas frequentemente, vem sendo derrubadas para darem lugar às lavouras monocultoras. Hoje, para conseguir certas espécies de sementes, os coletores estão tendo que se deslocar por distâncias cada vez maiores.
Coleta de sementes é alternativa para justiça socioambiental

Coletores reúnem-se na cidade de Nova Xavantina (MT) para planejar as atividades do ano de 2015
Nas reuniões foi apontada a importância da coleta de sementes na vida das famílias integrantes da Rede, trazendo recursos que complementam a renda e melhoram a qualidade de vida das pessoas.
A coleta fomenta a diversificação da produção a partir de arranjos produtivos com bases agroflorestais, gerando novos produtos que são comercializados nas feiras regionais e mercado local.
Como alternativa para a problemática da produção e redução das áreas de coleta, foi indicado que seja fomentado ainda mais os sistemas produtivos com bases agroflorestais, aumentando cada vez mais o número de matrizes próximas aos coletores para garantir a produção. Um bom exemplo são os sistemas agroflorestais implantados pela Associação Ceiba, no Projeto de Assentamento Caeté, zona rural do município de Diamantino (MT).

Coletores e familiares da Rede de Sementes do Xingu tiram foto depois da reunião no PA Caeté, município de Diamantino
Outro sistema parecido é o ‘casadão’, que leva esse nome por apresentar uma grande diversidade de espécies florestais e abrigar na mesma área criação de animais e cultivo de espécies agrícolas, bastante utilizado pelos agricultores na região de São Felix do Araguaia (MT) para promover a restauração florestal e ao mesmo tempo gerar renda e produzir alimento.
Coletores querem mais participação de jovens

No PA Macife, em Bom Jesus do Araguaia, coletoras e coletores também avaliam seus potenciais de coleta para 2015
Nas reuniões foram levantadas as principais demandas dos núcleos para o ano de 2015. Vários grupos destacaram a importância de a Associação fomentar ações que possam aproximar os jovens da iniciativa, considerando o grande número de jovens que contribuem, direta ou indiretamente, nas atividades. Os jovens são o futuro da Associação e é preciso integrá-los na iniciativa.
A Rede de Sementes do Xingu em 2015
A Associação Rede de Sementes do Xingu possui 421 coletores associados e sete casas de sementes espalhadas pela região. No ano passado foram coletadas mais de 17 toneladas e mais de 120 espécies de sementes florestais do bioma Cerrado e Amazônico.
Veja como ela funciona no diagrama abaixo:

(Por Rafael Govari/ISA; Fotos de Adryan Araújo Nascimento/ISA).
