ARSX discute Restauração Ecológica em conferência global na Austrália

16/10/2023 | Lia Rezende Domingues/ARSX
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Representada por João Carlos Pereira e Oreme Ikpeng, ARSX debate a restauração ecológica a partir da perspectiva das comunidades tradicionais

Entre os dias 26 e 30 de setembro, dois representantes da Rede de Sementes do Xingu estiveram presentes na 10th World Conference on Ecological Restoration, um dos maiores eventos de restauração ecológica do mundo, em Darwin, Território Norte  da Austrália. 

Sob o tema “Natureza e pessoa como uma coisa só: celebrando a restauração e a conexão”, a conferência, promovida pela Society for Ecological Restoration (SER), reuniu mais de 1000 pessoas de 80 países para debater a agenda da restauração ecológica a nível global.

Foto: João Carlos Pereira/ARSX

A DIMENSÃO SOCIOCULTURAL DA RESTAURAÇÃO ECOLÓGICA

A Rede de Sementes do Xingu (ARSX) foi convidada para realizar uma apresentação na sessão “Codesign de Redes de Produção Indígena para a Restauração“, um dos workshops da conferência, voltado para a inclusão de iniciativas indígenas e conhecimentos de comunidades locais no processo da restauração ecológica – um tema que muitas vezes é negligenciado. 

“A ARSX já trabalha com a restauração ecológica a partir da perspectiva das comunidades há um tempo. Vimos que o Brasil está muito à frente na questão da restauração. Apresentar o que temos feito e ver esse debate ganhar importância no cenário internacional é muito interessante”, avalia João Carlos Pereira, técnico responsável pela Restauração Ecológica da ARSX que esteve presente no evento. 

O workshop, apoiado pela da Agência Nacional de Ciência da Austrália (CSIRO) e pela Valuing Sustainability Future Science Platform (VSFSP), reuniu quatro organizações – três da Austrália e a ARSX, representando o Brasil – para apresentar suas experiências locais na perspectiva de quem faz a restauração, refletindo sobre como grupos indígenas podem não apenas liderar sistemas de produção para a restauração, mas também recriar possibilidades, metodologias e técnicas diretamente ligadas a seus modos de vida, olhares e cultura. 

“Nesse sentido, a restauração não é apenas um processo de consentimento e respeito, mas um processo de coprodução que permite que a restauração ganhe uma outra escala – uma escala que não é apenas geográfica, mas de construção de redes e de reorganização dos processos com benefícios na base local”, pondera Danilo Urzedo, pesquisador parceiro que contribuiu para a participação da ARSX no evento. 

Representada também por Oreme Marlus Ikpeng, do Território Indígena do Xingu, a participação da ARSX traz não só visibilidade e ganho de repertório para a associação, como também contribui com seus pares ao compartilhar sua experiência acumulada em quase 16 anos de atuação. 

“Representar o povo Ikpeng e a ARSX em um evento internacional contribui na divulgação de nossas ações e também para minha formação enquanto pessoa e profissional. Foi maravilhoso conhecer outras experiências, projetos e realidades da restauração”, relata Oreme, que acompanha os trabalhos da ARSX no Território Indígena Xingu desde o princípio, ainda em 2007. 

Além disso, o evento contou ainda com a participação do Redário, importante parceiro da ARSX, que articula 24 redes de sementes pelo Brasil e que apresentou como tem sido o trabalho e a importância das Redes de Sementes para a restauração ecológica no Brasil. 

Eduardo Malta apresenta o trabalho do Redário em workshop da conferência. Foto: João Carlos Pereira/ARSX

CONHECIMENTO PARA ALÉM DA CIÊNCIA:

A RESTAURAÇÃO COMO MODO DE VIDA

Quem decide como restaurar os territórios? Segundo os participantes da conferência, uma grande contribuição do evento foi trazer a importância de envolver múltiplos conhecimentos e processos participativos nos processos de restauração ecológica, conforme aponta o pesquisador e parceiro Danilo Urzedo. 

“Um dos principais gargalos da restauração é focar apenas em ciência e mercados, negligenciando a coparticipação de comunidades tradicionais e indígenas como forma de conhecimento estratégico e fundamental para a restauração de um território”, explica Danilo. 

Assim, a 10th World Conference on Ecological Restoration inovou ao trazer a importância de diferentes visões para negociar o processo de restauração, levando em consideração a Década de Restauração da ONU e questões como justiça ambiental e mudanças climáticas.  

“Várias plenárias com importantes representantes de comunidades indígenas, lideranças e pesquisadores da África, da Ásia e das Américas demonstraram como podemos pensar a restauração para além de modelos eurocêntricos e do Norte Global”, complementa Danilo.  

É preciso reconhecer não apenas as diferentes vozes que compõem a restauração, mas também avaliar como os processos dessa restauração são organizados. Como explica o técnico João Carlos, “o próprio tema do evento destaca a importância e a necessidade de trazer as pessoas para os processos de restauração e de criar processos restaurativos que se relacionem com as pessoas”.

FOTO: João Carlos Pereira/ARSX

VISIBILIDADE E IMPORTÂNCIA DE VOZES INDÍGENAS E COMUNITÁRIAS NA PRÁTICA

Compartilhar o protagonismo da restauração dos territórios com quem de fato os habita não foi apenas um tópico: foi também uma prática. Uma inovação do encontro foi dar espaço para que vozes indígenas e comunitárias repensassem também o formato da conferência e dos espaços de troca de conhecimentos dentro dela. 

Pensando nisso, houveram, ao longo de todo o evento, os “yearning circles”: rodas de conversa lideradas por representantes indígenas que permitiam a troca de experiências e histórias a partir do uso do “bastão da fala”, elemento comum em algumas tradições indígenas. 

“Nessas rodas, tinha um bastão, que era segurado por uma pessoa que poderia compartilhar experiências da sua trajetória de vida ou do próprio evento com o grupo que se juntasse nesse círculo de conversa. Ao concluir sua fala, essa pessoa passa o bastão para outra que também quisesse contribuir com aquela reflexão”, descreve Danilo. 

Essa foi uma solução para descentralizar o debate do evento, abrindo outros espaços de transferência de conhecimento que não só palestras e workshops. A partir de agora, os “yearning circles” serão institucionalizados como um espaço oficial das conferências da SER e será replicado na próxima edição, já agendada para Denver/EUA no ano que vem. 

 “O conhecimento passa por experiência, emoção, sentido e vivência. Ele não é apenas científico”, conclui Danilo.  

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