Em meio ao cenário da agropecuária no Mato Grosso, pautado por modelos extensivos e intensivos de uso dos recursos naturais, agricultores familiares fazem a diferença com a restauração de áreas degradadas e o uso da biodiversidade a partir de plantios agroflorestais.
Agrofloresta é um sistema de produção com diversidade de espécies florestais, conhecido na região como “casadão”, exatamente por gerar a união da diversidade, reconhecendo a funcionalidade ecológica e econômica da natureza. Além de árvores florestais, a mesma área pode abrigar a criação de animais e agricultura (como adubação verde e mandioca, por exemplo).
Nos últimos anos, foram implantadas várias áreas de agrofloresta, sobretudo, por organizações como Comissão Pastoral da Terra (CPT), Associação Terra Viva (ATV) e Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora de Assunção (Ansa). O sistema tem sido uma oportunidade para a recuperação de áreas degradadas e geração de renda. Os projetos avançaram a partir do ano de 2001, envolvendo diferentes municípios da região: Canabrava do Norte, Confresa, São José do Xingu, Porto Alegre do Norte, Vila Rica e São Félix do Araguaia.

Agricultora do PA Dom Pedro coleta sementes de urucum de seu plantio agroflorestal. (Foto: Tui Anandi)
Em assentamentos como o PA Manah, na cidade de Canabrava do Norte, as áreas de agrofloresta já são uma realidade que geram frutos. O agricultor João Botelho, que trocou uma vaca por mudas de pequi dos índios do Xingu, afirma que “o mais importante é que a semente chegue até a terra”. O quintal agroflorestal da casa do seu João, também é um importante espaço de convívio social, onde ocorrem reuniões e encontros da comunidade.
Em São Félix do Araguaia, os agricultores Gaúcho e Raimunda, do PA Dom Pedro, cultivam a diversidade na agrofloresta. O lote abrange vários plantios, tais como mandioca, feijões e abacaxi, com espécies florestais frutíferas de cupuaçu, pequi, araçá e mangaba. Em meio a essa biodiversidade, os agricultores ainda produzem mudas.
Para Ana Lúcia Sousa, técnica da Ansa, a agrofloresta é uma forma de se trabalhar a terra, visando “casar” a mata e a agricultura com a criação de pequenos animais. “Tudo junto, em uma mesma área, melhorando a qualidade de vida das famílias que moram no campo, trazendo a melhoria da qualidade de vida para os assentamentos”.
Agricultores familiares do Xingu-Araguaia mato-grossense encontram no sistema agroflorestal, conhecido como ‘casadão’, meios para conservar a natureza enquanto colhem oportunidades de renda
A engenheira florestal Cláudia Araújo, da CPT, que tem acompanhado os trabalhos nos assentamentos da região, afirma que as ações não tratam apenas do plantio agroflorestal, mas também da questão da solidariedade e organização da comunidade. “O ‘casadão’ pode ser entendido como uma filosofia de vida, que promove uma relação do agricultor com a natureza e com os outros agricultores da comunidade”.
Por mais que essa trajetória agroflorestal tem apontado um caminho de benefícios familiares, muitos desafios ainda são vividos pelos agricultores. Para Cláudia, o futuro da agricultura familiar ainda esbarra na falta de assistência técnica, na necessidade de organização das comunidades e ainda mais em razão das pressões do agronegócio.
Além disso, a agrofloresta exige uma contínua demanda por mão-de-obra para manejar as áreas. E, não tem sido simples encontrar mercados locais para comercialização, considerando as longas distâncias para escoar a produção. Alternativas de mercado têm sido estabelecidas a partir das feiras públicas das cidades e por meio do acesso aos programas de aquisição de alimentos (PAA).

Reunião de coletores da Rede de Sementes do Xingu no quintal agroflorestal do agricultor João Botelho, no PA Manah, em Canabrava do Norte (Foto: Tui Anandi)
Agrofloresta para gerar renda
Um importante uso econômico da agrofloresta tem sido a coleta de sementes para a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX). Atualmente, tanto os agricultores do PA Manah, como do PA Fartura, integram núcleos de coleta e se nomeiam também como coletores de sementes.
Com a proposta de coleta de sementes florestais, os agricultores foram estimulados a conhecer melhor a ocorrência das espécies nos lotes, valorizando a biodiversidade. Os agricultores já coletam sementes de espécies florestais e de adubação verde da agrofloresta, gerando um efeito de uso e conservação, com a geração de renda para as famílias. O trabalho com as sementes fortalece a união do grupo, estimulando a cooperação local, através da organizam em grupos para tratar do tema e trocar conhecimentos.
Outro importante destaque é a Fábrica de Polpas do Araguaia, em São Félix do Araguaia, onde os agricultores fazem entrega da polpa das espécies frutíferas. O conjunto das sementes com a polpa, evidencia que o trabalho agroflorestal possibilita resultados a curto, médio e longo prazo, com diversidade de produção e vários benefícios.
A resposta da terra diante das mudanças climáticas
Por mais que existam muitos desafios para o futuro da agricultura familiar, Claudia Araújo sinaliza que a agrofloresta é a resposta da terra diante das mudanças climáticas. “Com as mudanças climáticas, fica cada vez mais evidente a necessidade de plantios agroflorestais em detrimento de monocultivos”.
Para Ana Lúcia, os resultados alcançados até o momento têm sido expressivos e podem contribuir para a atividade ganhar mais força na região. “Diminui o ataque de pragas e doenças, temos mais oferta de produtos com elevação da diversidade de renda, tudo ajudando na conservação da água e do ambiente”.
(Por Danilo Ignacio – ISA; com a colaboração de Rafael Govari – ISA)

