Sementes do Xingu realiza 1ª restauração ecológica em parceria com propriedade rural

20/11/2021 | Ludmilla Balduino - Da Rede de Sementes do Xingu
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Restauração Ecológica
Projeto vai recuperar mata ciliar do Rio das Mortes, um dos principais afluentes do Rio Araguaia e rio mais importante do município de Nova Xavantina (MT)

(Atualizado em 08/08/2022)

Em 2021, a Rede de Sementes do Xingu deu mais um passo rumo à sua própria autonomia dentro da Cadeia de Valor da Restauração Ecológica: pela primeira vez, a Associação realizou um plantio de restauração de área degradada em parceria com uma propriedade rural usando 100% de sua força de trabalho interna.

Isso quer dizer que todas as etapas da restauração ecológica utilizando o método da muvuca, ao qual a Rede de Sementes do Xingu é adepta, estão sendo cumpridas: desde a coleta popular das sementes, até o plantio e monitoramento da área que foi restaurada.

A coleta de sementes é realizada por mais de 560 coletores de sementes nativas espalhados por territórios de Amazônia e Cerrado em três territórios indígenas, 16 assentamentos da reforma agrária, e 21 municípios do estado de Mato Grosso. A maior parte da força de trabalho de coleta das sementes (80%) é formada por mulheres.

Do potencial de coleta de 40 toneladas de sementes previsto para o ano de 2021, cerca de 180 quilos foram usados pela Rede de Sementes do Xingu no plantio de uma área de reflorestamento de cerca de 2,5 hectares na fazenda Dois Irmãos, do agropecuarista João Violin.

Esse volume de sementes de espécies diferentes é chamado de muvuca. O plantio da muvuca é realizado via semeadura direta, ou seja, as sementes são plantadas diretamente no solo da área que será restaurada.

Área da fazenda Dois Irmãos que será restaurada pela Rede de Sementes do Xingu. À direita, está a mata ciliar do Rio das Mortes, que será ampliada (foto: João Carlos Pereira/ARSX)

O plantio foi realizado de forma mecanizada com trator, calcareadeira e uma grade niveladora para enterrar as sementes. A execução dessa restauração é uma dentre as ações do projeto “Muvuca de sementes é Muvuca de gente“, firmado entre a Rede de Sementes do Xingu e o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), dentro do Programa PPP-Ecos. O trabalho na fazenda do Violin também está sendo realizado em parceria com a empresa Plantando Sementes, empresa de consultoria ambiental sediada em Nova Xavantina.

A empresa havia trabalhado com Violin no projeto de restauração que iniciou em 2020 e agora acompanha e trabalha junto com a Rede de Sementes do Xingu nesta ampliação. Para João Carlos, “esse é um arranjo bacana que conseguimos construir com o senhor Violin, de unir diferentes atores (proprietário, empresa e ONG) para realizar a restauração com muvuca aqui na região.”

Bruna Ferreira, diretora-presidente da Associação Rede de Sementes do Xingu, demonstra-se animada com o plantio: “essa área é muito importante para a Rede. Foi a nossa primeira área de restauração ecológica em uma fazenda, feita pelos nossos técnicos e utilizando a muvuca — um método que fez com o que a Rede alcançasse resultados em números e também em transformações socioambientais, através do trabalho que desenvolvemos ao longo de nossos 15 anos de existência.”

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A área que será reflorestada já está cercada para evitar a entrada de animais maiores enquanto a vegetação nativa se desenvolve (Foto: João Carlos Pereira/ARSX)

João Violin conta que seu maior interesse em restaurar áreas de sua propriedade que fica na zona rural de Nova Xavantina (MT) vem do sentimento de admiração que ele nutre pela natureza. “Eu gosto da natureza. Ela é um presente de Deus. Eu tive a sorte de ter uma propriedade. Quando comprei essa fazenda, em 2003, já estava tudo desmatado. Desde então, nunca derrubei uma árvore aqui”, diz o agricultor, que já tem uma área de reserva legal consolidada.

Seu primeiro contato com o método da muvuca e seus benefícios na restauração ecológica aconteceu em 2020, durante um curso de restauração ministrado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), em Nova Xavantina. No início de 2020, Violin fez uma restauração em uma área de sua propriedade, e agora, ele busca reforços.

Seguindo o projeto, foi realizado no dia 23 de novembro o plantio das sementes em uma área de mata ciliar do Rio das Mortes, um dos principais da região e o rio mais importante da cidade de Nova Xavantina (MT). João Carlos Pereira, técnico em restauração ecológica da Rede de Sementes do Xingu, conta que serão semeadas no local espécies nativas do Cerrado, especialmente frutíferas como baru, jatobá, pequi; madeiras como ipê, copaíba, peroba e carvoeiro; e flores como cega-machado, caroba e carobinha.

De acordo com seu Violin, a previsão é recuperar mais áreas nos próximos anos, até que as margens do rio que passa na propriedade tenham 100 metros de faixa de mata ciliar de cada lado.

Nascido no interior do estado de São Paulo, o proprietário rural está promovendo uma administração inovadora, baseada em ações inteligentes. Como, por exemplo, implantar o pastejo rotacionado, dividindo o pasto de 100 hectares em 10 pastos menores, aumentando a produtividade por área e tornando-os mais fáceis de serem administrados.

Além disso, Violin instalou redondeis (currais redondos) com água de poço artesiano ou de mina, mais livre de impurezas do que água de rio ou de poça. O curral circular ajuda o gado a não se estressar. “Eu não sou obrigado a fazer isso. Podia ficar como está. Mas hoje o mundo mudou, só não acompanha quem não quer”, diz o agropecuarista.

Em 5 de agosto de 2022, João Violin, João Carlos Pereira e Kamila Parreira conversam em frente à área de restauração ecológica (foto: Ludmilla Balduino/ARSX)

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