Há quem diga que o ano de 2020 ainda não acabou. A sensação é causada pela continuidade da pandemia de covid-19, que começou em março de 2020 e segue até a data de publicação desta retrospectiva do ano de 2021 da Rede de Sementes do Xingu.
Só que, diferente de 2020, o início de 2021 foi marcado pelo afrouxamento das restrições sanitárias e a pressão para a retomada de atividades econômicas presenciais, junto à falta de resposta rápida por parte dos governos. Esses fatores levaram a um pico de internações e mortes em abril e maio de 2021.
Formada por brasileiros, a Rede de Sementes do Xingu também acompanhou esse movimento das ondas de contaminações, internações e mortes por covid-19 no Brasil. Coletoras e coletores, elos, grupos, equipes, diretoria, conselhos e parceiros: cada um de nós sentiu na pele a dor do luto. Cada um à sua maneira, e todos agindo em respeito ao outro, e em respeito à nossa diversidade.
No segundo semestre, com o aumento do número de pessoas vacinadas com a segunda dose contra a covid-19, a Rede começou a preparar-se para, gradualmente, retornar às atividades presenciais. Sempre observando as movimentações do coronavírus e suas variantes, e agindo de acordo com as medidas sanitárias decretadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
E assim, neste ano de 2021, a Rede de Sementes do Xingu, que vinha se adaptado para coletar e transportar as sementes com segurança, bate o recorde histórico de coleta de sementes nativas para restauração ecológica. Neste segundo semestre, retoma as tão necessárias atividades presenciais que resultam em troca de conhecimento, em mais liberdade de escolha para todos, em fortalecimento da sociobiodiversidade, sempre em rumo ao Bem Viver.
Abaixo, você lê um resumo das principais atividades e do desempenho da Rede de Sementes do Xingu em 2021:
Coletores batem recorde de coleta de sementes

Eva Rodrigues, coletora de sementes e nova elo do assentamento Macife, exibe o resultado da coleta de 2021 do grupo
O ano começou com o crescimento da onda mais forte da pandemia de covid-19 no Brasil, o que levou a um pico que ultrapassou o número de 4 mil mortes diárias durante o mês de abril.
Mesmo sob luto e dificuldades impostas pela pandemia e pela falta de resposta rápida do governo, os 25 grupos de coleta que fazem parte da ARSX entregaram 32 toneladas de sementes em 2021, o que gerou uma renda de R$ 900 mil reais.
O número é um recorde histórico e representa a retomada do crescimento do volume de coleta de sementes, que vinha acontecendo gradualmente desde 2007 (quando a ARSX nasceu) e teve um rompimento em 2020 (quando a Rede, severamente impactada pela pandemia, comercializou 19 toneladas, nove a menos do que o volume de 2019).

A coletora Odete Severino Barbosa e seu neto, Mayky Daniel Alves Barbosa, em um dia de coleta de sementes em 2021, no assentamento Macife (Foto: arquivo pessoal)
Assim, nesses 15 anos de história, os coletores da Rede de Sementes do Xingu já forneceram mais de 220 espécies diferentes de sementes para a restauração de áreas degradadas, gerando uma renda total de R$ 5,3 milhões, repassada diretamente às comunidades de coletores. Já comercializamos mais de 294 toneladas de sementes que fizeram crescer cerca de 25 milhões de árvores em 7,4 mil hectares de áreas que hoje são florestas.
No auge da pandemia, Assembleia Geral da ARSX foi toda online

Em 2021, a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) aprendeu a trabalhar ainda mais online, e pela primeira vez, realizou uma Assembleia Geral de forma totalmente virtual.
A 6ª Assembleia Geral da ARSX foi realizada nos dias 30 de junho e 1º de julho, com a presença de cerca de 45 pessoas, após um mês de conversas prévias com os coletores em grupos no WhatsApp (a nossa principal ferramenta de comunicação na pandemia). Em conjunto, os participantes decidiram sincronizar o tempo de mandato da Diretoria, do Comitê Diretivo, do Conselho Curador e do Conselho Fiscal, que passou a ser de três anos, cada. Essa medida visa facilitar as eleições. As próximas serão em 2024.
A Diretoria foi reeleita: Bruna Dayanna Ferreira como diretora-presidenta da Associação
e coordenadora da Rede, e Antonio Augusto Marques Martins e Tariaiup Kaiabi
como diretores. Os integrantes do Conselho Fiscal e do Conselho Curador foram definidos a partir do histórico de relacionamento das pessoas com a Rede, e não somente através de indicações de organizações parceiras.
No Conselho Curador estão Andreas Ufer, Fátima Piña, Rachel Biderman, Rodrigo Junqueira, Rone César Borges, Vania Aguiar e Watatakalu Yawalapiti. No Conselho Fiscal, os integrantes são Francisco Gonsales, Katia Cruz e Wassayu Kitsapa Ikpeng.
Entre outras medidas internas para melhorar a atuação e a rapidez de resposta da Rede de Sementes do Xingu, está a criação de um protocolo de atendimento a pesquisadores interessados em estudar os diversos aspectos da associação.
Outro evento virtual que marcou o ano de 2021 foi o intercâmbio entre os coletores da Rede de Sementes do Xingu e os agricultores familiares da Escola Família Agrícola Jaguaribe, no Ceará. Um papo que inspirou as pessoas de lá e de cá. Mesmo sendo virtual, tinha um ar de casa de roça, com prosa tranquila, cheiro de café e bolo quentinho, e muita fé e esperança.
O retorno gradual aos encontros e oficinas presenciais

O primeiro encontro presencial da Rede após o início da pandemia de covid-19 foi a Oficina de Qualidade das Sementes no assentamento Manah, em setembro de 2021
Com a vacinação e a retomada gradual das atividades presenciais, a Rede de Sementes do Xingu marcou seu primeiro encontro presencial para o dia 6 de setembro, quando ocorreu a Oficina de Qualidade das Sementes realizada por Claudia Araújo, da equipe de Produção e Qualidade, junto a 10 coletores do assentamento Manah, em Canabrava do Norte (MT), e guardiões das três Casas de Sementes. Na época, todos os presentes já tinham recebido a segunda dose da vacina contra a covid-19.
Foram discutidas a importância da qualidade das sementes nativas para reflorestamento e as boas práticas para garantir qualidade em cada uma das etapas de produção (coleta, extração, limpeza, secagem, classificação e seleção, e armazenamento).
A oficina teve como objetivo nivelar o conhecimento para os coletores de sementes e atualizá-los sobre as novas práticas adotadas pela ARSX após a realização de pesquisas científicas de coletores e parceiros da Rede.
Entre as novas práticas, está a do armazenamento das sementes de buriti e landi – duas plantas de áreas alagadas de Cerrado. Neste vídeo, a coletora, pesquisadora e membro do Comitê Diretivo da ARSX, Milene Alves, explica a melhor maneira de armazenar essas sementes.
Na Rede de Sementes do Xingu, o controle de qualidade começa no trabalho de cada um dos coletores, e posteriormente a qualidade das sementes também é avaliada pelos elos (gestores dos grupos coletores), os técnicos, os guardiões das Casas de Sementes, e os laboratórios parceiros da ARSX.
Entre 18 e 21 de novembro, foi realizado o Encontro dos Elos da Rede de Sementes do Xingu do Território Indígena Xingu (TIX), no Pólo Pavuru, região do médio Xingu. O encontro contou com a participação dos elos das aldeias Pyulaga, Pyulewene, Kwaryja, Ilha Grande, Vila Nova, Samaúma, Tuba Tuba e Moygu/Arayo.
Pouco tempo antes do encontro, em outubro, Oreme Ikpeng, facilitador de atividades com grupos de coletores da ARSX no TIX, havia percorrido as aldeias onde há coletores de sementes para um diagnóstico prévio que culminou nos temas discutidos em novembro.

Elos do TIX posam para foto no último momento do Encontro dos Elos, em outubro de 2021 (Foto: Oreme Ikpeng)
No início do Encontro dos Elos, os participantes – de cinco povos indígenas diferentes – atualizaram-se sobre o que está acontecendo em cada grupo de coletores do TIX. Uma dificuldade expressada pela maioria foi relacionada à comunicação dos coletores e elos com o restante da Rede de Sementes do Xingu, por conta das limitações de energia elétrica e acesso à internet no Território Indigena. As falhas de comunicação levaram a dificuldades, por exemplo, com o transporte de ferramentas para a produção das sementes, e com o transporte das sementes já prontas para o plantio para as Casas de Sementes da ARSX.
Mesmo com dificuldades e limitações, os elos mostraram suas inovações que servem de inspiração para a organização do trabalho, inclusive em diversas outras áreas. Os coletores da aldeia Vila Nova, do povo indígena Kawaiwete, por exemplo, organizaram-se para fazer as coletas sempre juntos. Assim, todos entregaram o volume total de sementes coletadas no grupo, e o pagamento pelas sementes comercializadas foi dividido igualmente entre os coletores.
Por último, na tarde de 19 de dezembro, foi realizada uma roda de conversa com jovens do assentamento Manah. Os jovens fazem parte de famílias de coletores de sementes e conversaram com Claudia Araujo sobre o trabalho que seus parentes realizam.

Roda de conversa com jovens do assentamento Manah (Foto: Claudia Araújo)
Essa foi a primeira de uma série de conversas com grupos de jovens que devem continuar em 2022, com objetivo de buscar alternativas econômicas locais dignas para as famílias, evitar o êxodo rural e formar lideranças.
Além da exigência de no mínimo duas doses de vacina contra covid-19, também é necessário usar máscara e álcool em gel, manter o distanciamento seguro, estar preferencialmente em ambientes ao ar livre e de boa circulação de ar, e limitar o número de pessoas em cada evento presencial, desde que as atividades foram retomadas.
Voltamos a realizar plantios de reflorestamento com sementes nativas

Coletores e equipe da Rede de Sementes do Xingu mostram a muvuca de sementes plantada no terreno da família Righi, no assentamento Bordolândia, no dia 28 de novembro (Foto: Ludmilla Balduino)
Este ano, aproveitando a retomada gradual de atividades presenciais, a Rede de Sementes do Xingu realizou sete plantios de restauração ecológica em diferentes áreas: cinco deles foram feitos juntamente a empresas e instituições parceiras, e dois foram realizados com 100% da força de trabalho interna da Rede.
Em todos os plantios, foi utilizada a técnica da muvuca, que consiste em uma mistura de sementes nativas que foram coletadas pelos grupos da Rede ao longo do ano, e então semeadas diretamente no solo da área de restauração, fazendo brotar uma floresta diversa e resiliente.
O primeiro plantio foi realizado na área de mata ciliar do rio das Mortes, um dos afluentes do Rio Araguaia, na fazenda Dois Irmãos, zona rural de Nova Xavantina (MT), em 23 de novembro. O segundo plantio foi em mutirão, com os coletores do assentamento Bordolândia, mais a nordeste do estado de Mato Grosso, no dia 28 do mesmo mês. Foi nesse assentamento que houve, em setembro deste ano, um incêndio florestal criminoso que devastou uma área de 500 hectares.
A Rede de Sementes do Xingu também realizou quatro plantios em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). O primeiro deles, na Fazenda Guariba, localizada em Vila Rica (MT), foi a estreia da nova equipe de restauração ecológica da Rede de Sementes do Xingu, formada por João Carlos Pereira e Kamila Parreira, em um plantio em larga escala, no dia 1º de dezembro.
Também na mesma época, dias 1º e 2 de dezembro, foi dado início ao plantio de uma área de 40 hectares na aldeia Guwa Puxurej, dentro do Território Indígena Zoró, em Rondônia. O plantio é o resultado de um trabalho desempenhado pela Rede de Sementes do Xingu em parceria com a Iniciativa Comunidades e Governança Territorial da Forest Trends (ICGT-FT) e a Ecoporé. Saiba mais sobre esse projeto aqui.
Nos dias 11 e 12 de dezembro, o ISA e a ARSX realizaram plantios de dois bosques em homenagem ao Heber Queiroz, coordenador do componente Adequação do Programa Xingu, do ISA. Heber morreu em decorrência da covid-19, em maio deste ano, aos 36 anos. Com sementes da ARSX, Heber ajudou a plantar mais de 18 milhões de árvores. Os plantios dos bosques foram realizados em dois lotes da família, na zona rural do município de Nova Xavantina.
Por último, em 17 de dezembro, a Rede semeou 18 quilos de sementes nativas em pequenos berçários de uma área degradada de nascente no lote dos coletores Roberzan e Vilmar Tusset, no setor de chácaras Olaria, zona rural de Nova Xavantina.
Somos Fazedores de Floresta e estamos no Youtube e Spotify

Cena do filme Fazedores de Floresta, com coletores de sementes da aldeia Ripá, na Terra Indígena Pimentel Barbosa (Foto: Tadeu Jungle)
Em 2021, a Rede de Sementes do Xingu estreou um canal no Youtube, o seu podcast “Hora da Muvuca” (que você pode escutar no Spotify), e foi a estrela do documentário gravado em 360º “Fazedores de Floresta”.
Depois do pré-lançamento na COP26 em Glasgow, com exibições e debates na Cúpula dos Povos e no Brazil Climate Action HUB, esse documentário de nove minutos estreou no Brasil em bate-papo online com as pessoas que ajudaram o filme acontecer e a cantora Maria Gadu, no dia 7 de dezembro.
Além do site oficial da rede, que passou por uma renovação em novembro, a Rede de Sementes do Xingu também está presente nas redes sociais, e você pode nos acompanhar por lá, também: Twitter | Instagram | Facebook | Linkedin.
ARSX teve suporte de três projetos em 2021
Atualmente, há três projetos que apoiam as ações de comunicação, articulação, políticas
públicas e parcerias da Rede de Sementes do Xingu. Essas ações visam o fortalecimento
da ARSX — uma associação inspirada no poder da diversidade. Veja quem são os apoiadores e até quando vão durar esses projetos com a ARSX:
- REM Mato Grosso – até 2023
- PPP-Ecos – até fevereiro de 2023
- Rainforest Foundation Norway – Até 2025
Além disso, a Rede de Sementes do Xingu conta com dezenas de apoiadores e parceiros.
