No primeiro semestre deste ano, os indígenas da etnia Kĩsêdjê, da Terra Indígena (TI) Wawi, vizinha ao Parque Indígena do Xingu (PIX), no Mato Grosso, concluíram o plantio de 60 hectares de pequi consorciado com capim. Trata-se de uma das ações do Projeto Sociobiodiversidade Produtiva no Xingu. Parte da cultura Kĩsêdjê, o pequi e o óleo dele extraído têm várias funções. É utilizado como hidratante corporal, remédio para problemas respiratórios e repelente de insetos.
Pensando em criar um nova fonte de renda, os indígenas começaram o plantio do pequi em larga escala em 2006. Utilizaram três hectares de uma área degradada, onde havia fazendas antes de a TI Wawi ser demarcada, totalizando 263 pés.
Em 2011, começou a extração do óleo, trabalho coordenado pela AIK, com apoio técnico do ISA e financeiro do Instituto Bacuri e do Grupo Rezek. E em 2014, teve início a ampliação do pequizal com mais 60 hectares financiados pelo Fundo Amazônia/BNDES.
Em 2014, foram produzidos 65 litros de óleo e 3 kg de castanha de pequi, rendendo R$ 4.000,00 aos Kĩsêdjê.
Em 2015, a produção cresceu para 340 litros de óleo e 21 kg de castanha. Cerca de metade da produção do ano passado de óleo já foi vendida, rendendo até agora R$ 5.000,00. Renomados chefs de cozinha estão utilizando o óleo em seus restaurantes, caso do chef Alex Atala.
Referência para a atividade pecuária
Além de aliar técnicas de rotação de pastagem e técnicas silvipastoris com pastos consorciados com pomares de pequi, os Kĩsêdjê também iniciaram a recuperação da mata ciliar da represa, destruída pela ocupação de não índios, isolando-a. Essas e outras iniciativas fazem do projeto em curso, futura referência para a atividade pecuária na região, adotando padrões de produção socioambientalmente mais adequados em relação à pecuária tradicional.

Com uso do furador hidráulico acoplado ao trator, foram feitos buracos de 60 cm de fundura por 40 cm de largura para o plantio das mudas. Foto Luciano Langmantel Eichholz – ISA
Luciano Langmantel Eichholz, consultor do projeto, explicou que os 60 hectares foram plantados em consórcio com capim braquiária e algumas espécies de árvores frutíferas nativas. Ao todo foram 2.709 pés de pequi plantados, por meio de sementes, e a taxa de sucesso foi de mais de 70% das covas com pequi nascido.
Para o plantio do pequizal e outros usos, a AIK conseguiu em 2014 um trator e implementos agrícolas com recursos do Fundo Amazônia. A área toda foi gradeada utilizando o trator, o que descompactou o solo. Com o furador hidráulico acoplado ao trator, foram feitos buracos de 60 cm de fundura por 40 cm de largura para o plantio das sementes de pequi. “Devido a terra ter sido descompactada, acredito que em seis anos já se inicie a produção”, avaliou Luciano.
Um dos manejos a serem feitos, antes de o gado entrar na área, é a roçagem do capim e enleiramento dessa palhada nos pés de pequi em forma de ninhos. A decomposição dessa palhada irá aumentar a matéria orgânica e também a umidade do solo nas covas, favorecendo o crescimento dos pés de pequi.

Foram plantadas 2.709 covas por meio de sementes de pequi. Foto Luciano Langmantel Eichholz – ISA
Antes, ainda, de colher os primeiros frutos, com cerca de quatro anos, as dez cabeças de gado que os Kĩsêdjê têm atualmente, serão soltas na área para pastar a braquiária, no que é chamado de Sistema Silvipastoril. O Projeto possibilitou, também, a construção de 6 km de cerca nova e a reforma de 1 km. A sede da Fazenda Comunitária Ronkhô, dos Kĩsêdjê, onde o projeto é desenvolvido, também foi reformada para abrigar o vaqueiro e a produção.
A área de 60 hectares foi dividida em três piquetes de mais ou menos 20 hectares cada, para o gado fazer pastejo rotacionado. Enquanto pastejam em um piquete, os outros dois estão em repouso para a recuperação da pastagem e, assim, a área comporta maior número de cabeças por hectare. A pastagem vai ser sombreada pelos pés de pequi, aumentando o conforto animal e, consequentemente, o ganho de peso.
Caça e pesca estão diminuindo
Culturalmente o pequi não tinha como destino o mercado externo e os indígenas nunca criaram gado. Yaiku Suya, diretor executivo da Associação Indígena Kĩsêdjê, disse que a criação de gado se originou na preocupação com a diminuição cada vez maior da caça e da pesca, servindo como um complemento alimentar. “Pelo que a gente vê, no território Xingu vai faltar peixe, vai faltar caça, por isso surgiu a ideia de criar um pequeno rebanho para consumo próprio. Não é da nossa cultura, mas estamos experimentando isso”.
Futuramente, a ideia é que, assim como o óleo de pequi, o gado também gere renda, além de servir para consumo próprio. Hoje os indígenas usam carro, barco movido a motor, gerador, o que acarreta despesas, ainda mais por conta das longas distâncias. O gado e o óleo de pequi para venda vão gerar recursos para cobrir os custos, principalmente de combustível.
A Fazenda Comunitária Ronkhô é a mais próxima da Aldeia Nghôjhwêrê, dos Kĩsêdjê. No total são seis fazendas que foram homologadas como Terra Indígena em 1999, criando a TI Wawi. Algumas áreas estavam desmatadas e com pastagens. Essa condição desfavorável está sendo revertida com a implantação do Sistema Silvipastoril, que consorcia gado e pequi e possibilitará a ampliação de outra cultura com a qual os Kĩsêdjê trabalham há 20 anos, a apicultura. O pequi é excelente para produção do mel. O Mel do Xingu é vendido pela rede de supermercados Pão de Açúcar há mais de dez anos.
Consolidação das cadeias produtivas

Em 2015 foram produzidos 340 litros de óleo de pequi e 21 kg de castanha de pequi. Foto Luciano Langmantel Eichholz – ISA
“Estamos lutando para ver se a gente consegue apoio para dar continuidade aos projetos” disse Pasi Suya, presidente da AIK. “Precisamos de apoio para a manutenção do pequi e também para cuidar o gado”.
Além dos 60 hectares plantados, os Kĩsêdjê construíram cercas, reformaram a sede da fazenda, melhoraram o equipamento da fábrica de extração de óleo, reformaram o curral, instalaram três bebedouros e uma roda d’água e compraram um trator e implementos. Tudo isso, foi conseguido com recursos do Fundo Amazônia/BNDES, por meio da Associação Indígena Kĩsêdjê (AIK), com apoio do ISA.
Empreendedores, os Kĩsêdjê criaram uma cesta de produtos, alguns típicos de sua cultura e outros não, para suprir a comunidade e custear despesas básicas vendendo para terceiros. Mesmo com os enormes desafios e muito trabalho pela frente, a iniciativa vem dando certo.
(Por Rafael Govari – ISA)

Com recursos do FAM foi adquirido um trator e implementos agrícolas. Os indígenas também participaram de treinamentos do SENAR para uso do maquinário. Foto Luciano Langmantel Eichholz – ISA

O projeto FAM possibilitou a construção de 6 km de cerca nova e a reforma de 1 km. Foto Luciano Langmantel Eichholz – ISA

Da E para D: Luciano, Yaiku e Pasi. Foto Rafael Govari – ISA
