I Encontro Indígena de Restauração Ecológica encoraja rede indígena de restauração

17/07/2024
Marãiwatsédé
Restauração Ecológica
Restauração ecológica inclusiva
Restauração indígena
SOBRE2024
Xavante
Parte da SOBRE2024, o I EIRE contou com a presença da Rede de Sementes do Xingu e encorajou a criação de uma rede indígena de restauração

Que sem pessoas não se pratica a restauração ecológica já se sabe – afinal, territórios são feitos de gente. Nos dias 8 e 10 de julho de 2024, no campus da Unifasv em Juazeiro/BA, o I Encontro Indígena de Restauração Ecológica (I EIRE) reforçou a dimensão inclusiva e integrativa dos debates em torno da restauração no Brasil ao colocar em pauta um assunto fundamental: o protagonismo indígena na restauração. 

O evento fez parte da programação da V Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE2024) e contou com cerca de 100 participantes, incluindo representantes de 41 etnias indígenas de todos os biomas do país e de instituições como Funai, Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Ministério do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas (MMA), Instituto Sociedade e Natureza (ISPN), Embrapa e o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). 

O segundo dia do I EIRE contou com apresentações institucionais das organizações presentes, além de rodas para troca de saberes e experiências, com moderação do ISPN. FOTO: Lia R Domingues/ARSX

Junto a eles, a Rede de Sementes do Xingu (ARSX) também esteve presente e integrou as discussões, que incluíram troca de experiências e saberes sobre os projetos de restauração realizados nos territórios representados, além de políticas de restauração ecológica, caminhos para o protagonismo indígena na restauração e possibilidades de unir conhecimento acadêmico e ancestral na prática restaurativa. 

“Eu gostei do discurso e da troca de saberes dos povos. É importante conhecer também de outras realidades para ver a necessidade do nosso território. A gente colocou mais propostas pros parceiros para fortalecer mais esse trabalho de restauração ecológica nos territórios”, conta Carolina Rewaptu, liderança Xavante e coletora da Rede de Sementes do Xingu desde 2011. 

Carolina Rewaptu Xavante e Bruna Ferreira na SOBRE 2024. FOTO: Lia R Domingues/ARSX

Segundo Lina Apurinã, da Secretaria Nacional de Gestão Territorial (SEGAT) do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o I EIRE foi também “um momento muito oportuno para vermos o que está acontecendo nos territórios relativos à restauração – sejam dificuldades e coisas que estão dando certo. Nas reuniões, percebemos que não existia uma resposta de como as comunidades queriam que funcionasse a restauração, e a gente conseguiu criar um espaço com muita gente qualificada que se importa com essa pauta para pensar junto em rumos futuros”. 

Nesse sentido, a criação de uma rede indígena de restauração ecológica se apresentou como um dos principais encaminhamentos: o fortalecimento e a articulação entre pares, inclusive e sobretudo na base, desponta como solução para fortalecer cada vez mais a autonomia dos povos e na busca do Bem Viver de todos os seres – humanos e não humanos – que habitam os territórios do Brasil. 

No centro da sala de debates, o Brasil, as experiências, as sementes e os maracás reforçam a importância do protagonismo indígena nos processos de restauração ecológica do país, sobretudo quando eles se dão em Territórios Indígenas. FOTO: Lia R Domingues/ARSX

Essa é a construção de agora. Esperamos conseguir lançar outros encontros, com ainda mais fala e pessoas indígenas. Existe a necessidade dessa conversa e diálogo entre saber ancestral e academia científica para conseguir entender dinâmicas contemporâneas instauradas no mundo relativas à segurança dos territórios e à restauração em si.” 

Abaixo, leia a Carta dos Povos Indígenas do I EIRE à SOBRE2024. 

Carta dos Povos Indígenas do I EIRE à SOBRE2024

Chamado para restaurar ecossistemas e cabeças com sabedoria ancestral indígena

“O processo de colonização neste lugar, que hoje se chama Brasil, já dura mais de 520 anos e ainda possui investidas sistemáticas de extermínio a nós, Povos Indígenas, evidenciadas pelos projetos de leis que tramitam nas instâncias de decisão do Estado Brasileiro. A mesma situação colonizatória se repete em outros espaços em que a pauta dos Povos Indígenas é tratada na forma de temas transversais, pois, na tentativa de diálogo, a sociedade e cabeças não indígenas têm dificuldade em compreender a complexidade dos nossos saberes, e com isso nos consideram incapazes de oferecer respostas efetivas às crises sociais, culturais e ambientais em curso na humanidade.

As terras indígenas correspondem a 14% do território brasileiro. Do total de áreas degradadas no país, aproximadamente 1% se encontra em terras indígenas. Os territórios indígenas são grandes responsáveis pela conservação. Somos os guardiões da biodiversidade. Portanto, defender e proteger as terras indígenas deve ser premissa da restauração ecológica. Demarcação e restauração andam juntas.

Os Povos Indígenas possuem técnicas milenares sobre manejo e cuidado com a terra. Para nós, a natureza não é vista apenas como componentes biológicos; a natureza é parte de nós, ela se faz presente em nossas vidas em todos os contextos e permeia vários mundos, pois a reconhecemos como fornecedora de alimento para nosso corpo físico e espiritual. Durante séculos, a ciência e o pensamento dos não indígenas teimaram em fazer essa cisão. E qual foi o resultado disso? Destruição, veneno, degradação do corpo-natureza e das mentes. E morte, muita morte. 

Hoje necessitamos também do conhecimento externo para auxiliar nos processos de restauração. Sempre fizemos o uso sustentável de nossos territórios; portanto, restaurar nunca foi preciso. Mesmo conscientes de que não somos responsáveis pelo problema, queremos ajudar a resolvê-lo. Para os povos indígenas, degradação não significa apenas deterioração dos meios biofísicos. Alcança corpo, mente e espírito. Esse vínculo é inseparável. Tudo que ameaça o sagrado nos degrada. Quando a degradação afeta povos indígenas, vocês podem pelo menos imaginar o sofrimento que isso traz a nós? 

No limite, percebemos que são os humanos mesmos que estão degradados. A restauração é uma oportunidade não apenas para curar as feridas abertas nas paisagens, mas também de curar as pessoas. E a maior doença se chama ganância e individualismo.

Os nossos pais carregam ciência das nossas matas. O que vocês chamam, por exemplo, de beneficiamento de sementes, nossos anciões carregam uma ciência ancestral. Mas nossa ciência não é uma ciência fria, desencantada. E temos o direito de transmiti-la para os filhos dos nossos filhos. Nós carregamos com nossos ancestrais nossos próprios modos de cuidar. O que vocês dividem em várias etapas e estágios e em várias técnicas, de forma compartimentada pela ciência de vocês, nós integramos no que chamamos de “cuidar”. Pode parecer uma palavra simplória, mas não se enganem, porque nesta pequena palavra existe um mundaréu de conhecimentos que a natureza nos ensinou, além de um infinito de uma espiral de cosmologias que não cabem aqui em palavras. Cosmologia não é superstição, mas o ingrediente para curarmos essa perda de conexão. 

Queremos ter participação efetiva na cadeia da restauração. Ou melhor, “cadeia” não. Essa palavra, “cadeia”, dá a ideia de aprisionamento. Preferimos chamar de “ninhos da restauração”, porque os ninhos são berços que preparam e sustentam os ciclos para o viver e a liberdade dos passarinhos . Mas para ter passarinhos, precisamos fazer voltar as matas. Afinal, restaurar é “refaunar”. E trazer reequilíbrio ecológico.

O que reivindicamos é que não sejamos excluídos da restauração. Fazemos restauração nos nossos territórios e fora deles, mas não somos muito valorizados e não temos muito acesso ao que vocês chamam de “cadeias da restauração”. Sequer estamos incluídos no Planaveg, por exemplo. NÃO HÁ RESTAURAÇÃO POSSÍVEL SEM OS POVOS INDÍGENAS. Precisamos estar nos espaços de discussão e também nos espaços de deliberação.

Reivindicamos também estar incluídos nas fontes de financiamento para a restauração. E não queremos ser tratados apenas como voluntários, para a execução de projetos. Queremos participar de todo o processo de forma efetiva: desde a própria concepção, reflexão e planejamento. Não somos apenas executores. Também não queremos que projetos de restauração já cheguem prontos para apenas executarmos. Merecemos ser remunerados de forma justa para fazer restauração.

Para nós, povos indígenas, a restauração não se limita apenas à dimensão ecológica; uma importante dimensão, mas não a única. Tem a ver também com produção de alimentos, artesanatos e qualidade do solo, por exemplo. Para nós, a restauração não é uma ciência meramente matemática, é uma ciência viva, que integra corpo-natureza, mente e espírito. Quando estamos numa paisagem, precisamos pedir licença, e pisar leve, devagar, com respeito. É preciso reencantar a ciência. Ciência da restauração só faz sentido para nós se trouxer cura. É ciência de encantamento e reencantamento.

Agradecemos à SOBRE por acolher o I Encontro Indígena de Restauração Ecológica, ajudando a gestar uma Rede Indígena de Restauração Ecológica (RIRE).

Quem escreve essa carta são representantes de quarenta e um povos indígenas vindos de todas as regiões do país e nós, povos indígenas dos Biomas brasileiros, queremos andar de mãos dadas com a Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica, e juntos ajudar a curar nosso planeta. 

  1. Promover trocas entre indígenas para trabalhar com restauração ecológica.
  2. Que o Poder Público, Financiadores e Organizações da sociedade civil lancem chamadas sobre restauração ecológica específicas e adaptadas para as associações indígenas que trabalham na temática.
  3. Que os órgãos competentes criem políticas públicas para a restauração ambiental nos territórios indígenas. 
  4. Que os povos indígenas sejam incluídos nos “ninhos da restauração”, nos espaços de discussão sobre restauração e também nos espaços de deliberação.
  5. Que os povos indígenas não sejam tratados como meros executores ou meros voluntários da restauração, mas que seja oportunizado que os indígenas atuem como protagonistas desde o início.
  6. Que a SOBRE possa contar com maior protagonismo indígena, inclusive na sua estrutura e nas plenárias principais de suas Conferências.
  7. Que as redes biomáticas e as universidades procurem os povos indígenas, para diálogo e articulação e quiçá parcerias.”

Carta elaborada no I EIRE é lida no palco principal da SOBRE2024. FOTO: Lia R Domingues/ARSX

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