Artesão faz móveis rústicos e belos com restos de madeira

31/01/2015
Canarana
Trocas de saberes

Valdir Dessbessel era agricultor na região Araguaia Xingu na década de 1980 junto com seus pais, que migraram do Sul como tantas outras famílias na época. E, como tantas outras, eles quebraram nesta atividade. Para Valdir sobrou apenas um eixo para serra circular, que sua família utilizava para cortar madeira e fazer suas construções.

“Falei pro meu pai: vou montar uma marcenaria! Meu pai disse: mas você nunca entrou em uma marcenaria!”, contou Valdir. Porém, recém-casado e com uma família para sustentar, ele não tinha opção. E, com apenas este eixo começou a sua marcenaria, na cidade de Querência, primeiramente fazendo artesanato.

Depois de um ano, em 1992, Valdir mudou-se para Canarana, na primeira Agrovila, a aproximadamente 6 km da cidade, onde continuou trabalhando com móveis e criou a empresa Arte Móveis, que trabalha com móveis planejados e artesanais.

Para fazer os móveis planejados, o marceneiro utiliza o MDF, que vem de reflorestamento. Sua renda principal vem da fabricação desses produtos de fino acabamento. Porém a sua satisfação está em outro trabalho, o de artesão, que ele faz com troncos, galhos e raízes secas que recolhe das florestas pela região.

Valdir contou que nas décadas de 1970 e 1980, no início da colonização da região, casas, pontes e demais benfeitorias eram feitas com a madeira que os pioneiros derrubavam da floresta. “Partes dos troncos não eram utilizados e ficavam no mato. Os anos decompuseram tudo o que não é utilizado, sobrando apenas o cerne. É com isso que eu faço os móveis rústicos”, explicou.

Ele também utiliza a madeira de árvores que morreram no processo natural e ficaram secas. Parte da madeira de pontes, quando são reformadas e de benfeitorias que são desmanchadas e não têm utilidade, também são utilizadas. As madeiras mais usadas são de Ipê, Jatobá, Angico e Garapa, todas elas de lei.

Iniciativas socioambientais como a de Valdir Dessbessel, 48 anos, em Canarana-MT, mostra que é possível fabricar lindos produtos com sobras de madeira sem precisar desmatar, gerando renda e preservando o meio ambiente

Com os restos de madeira o marceneiro produz vários móveis rústicos como bancos, mesas de jantar, mesas de centro, cadeiras para jardim, quadros, adegas, barzinhos, vasos para plantas… Ele não utiliza pinturas, apenas cera. “Cada madeira dá uma peça diferente. O cliente, quando faz a encomenda, nunca sabe como vai ficar o móvel, por que são mantidos os formatos do material colhido, ou seja, o que a natureza esculpiu. Procuro ressaltar um nó, um buraco na madeira. É isso que dá o charme”, explicou.

O artesanato fabricado por Valdir começou a ser mais conhecido quando foi exposto durante o II Encontro Nascentes do Xingu e a I Feira de Iniciativas Socioambientais, que aconteceu em Canarana em outubro de 2008, que mostrou os resultados da Campanha Y Ikatu Xingu (Salve a Água Boa do Xingu) alcançados nos primeiros anos de trabalho. Todos que adquiriam os móveis rústicos ganhavam um certificado da Campanha como agradecimento por ajudar a reflorestar as nascentes do Rio Xingu.

Tronco seco recolhido da natureza e que está sendo utilizado para a fabricação de pés de mesa

Além de não derrubar nenhuma árvore para fazer seu artesanato, Dessbessel também doa pelo menos uma muda da espécie da madeira recolhida para o dono da propriedade plantar. Cada cliente que compra os móveis produzidos com aquela madeira ganha mais uma muda daquela espécie. É por isso que todo aquele que compra um móvel rústico de Valdir, ajuda a reflorestar as nascentes do Xingu.

“É um ciclo. A natureza me dá a madeira que recolho para fazer os móveis. Eu doo as mudas para dar origem a outras árvores que irão produzir sementes e mais madeira quando elas morrerem naturalmente”, contou Valdir. Ele também diz que uma árvore em pé dá mais lucro que a madeira fruto da sua derrubada. “Acho que um Jatobá vive uns 200 anos e nesse tempo dá para coletar sementes e aproveitar a polpa que produz”, comparou.

As mudas que Valdir doa são produzidas por sua irmã, Herta Ehrleich, 55 anos, e seu cunhado, Paulo Roberto Ehrleich, 54 anos, que são coletores de sementes da Rede de Sementes do Xingu e também têm um viveiro no quintal da casa deles, em Canarana (veja a história deles aqui). Em troca, quando encontra sementes de árvores florestais durante suas andanças pelas matas para recolher madeira, Valdir coleta as sementes e entrega para Herta e Paulo.

Dessbessel diz que há muita madeira seca nas matas da região que podem ser utilizadas para a fabricação de artesanato em móveis rústicos. “Mesmo sem derrubar uma árvore, tem madeira para fazer móveis por uns 200 anos”, falou.

Porém, a demanda por esse tipo de móveis ainda é pequena na região. Por isso, a cada 100 móveis planejados vendidos por sua empresa, apenas um é rústico. A desvantagem do móvel rústico produzido por Valdir é que ele é mais caro, pois dá mais trabalho para fazer, porém dura muito mais e é mais bonito.

Valdir continua a fazer seu artesanato porque acredita na ideia e que um dia esse mercado irá se expandir. A iniciativa de aproveitar os restos de madeira e plantar novas árvores também o inspira. E tem outro motivo: “Quando estou muito estressado, eu vou e faço o artesanato. É como um escape, um hobby”.

Contato

Para quem quiser saber mais sobre essa iniciativa, os telefones de contato da Arte Móveis são: (66) 3478-1706 e 9619-0950. E-mail: valdir.artemoveis@hotmail.com.

Certificado entregue durante o II Encontro Nascentes do Xingu e a I Feira de Iniciativas Socioambientais

(Texto e fotos, Rafael Govari – ISA)

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