Oficina da Rede de Sementes do Xingu promove produção e manejo de sementes florestais para artesanato

01/07/2015
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PA Manah
Trocas de saberes
Sementes para artesanato têm se mostrado como novas oportunidades para coletores de sementes florestais da Associação

Guiada pela diversificação da produção local para subsistência e pela sustentabilidade dos meios de vida locais, a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) vem inovando cada dia mais em seus produtos. Agora, foi a vez da produção de frutos e sementes florestais tropicais para artesanato.

A demanda de materiais voltados para artesanato vem surgindo no mercado nacional e internacional, lançando novas oportunidades para os coletores da Associação. Além disso, é uma nova forma de aproveitar materiais com que os coletores já trabalham.

No dia 14 de junho, a consultora da ARSX, Sarah Domingues de Oliveira Andrade, facilitou uma oficina de produção e manejo de sementes florestais voltadas para o mercado de artesanato no Projeto de Assentamento (PA) Manah em Canabrava do Norte, Mato Grosso.

O PA. Manah possui um histórico de organização e articulação local focado na diversificação dos produtos da sociobiodiversidade, como doce de buriti, cocada, paçoca de carne seca, bordados e polpas de frutas regionais; e por isso foi o grupo escolhido, dentre os mais de 30 grupos de coleta com quem a Rede trabalha, para realização dessa oficina experimental para o novo mercado. “É sempre muito prazeroso vir ao Manah e encontrar esse pessoal com tanta vontade de se apropriar de novos aprendizados”, diz a técnica.

Coletora Mauricélia limpando sementes de tento-carolina

A oficina começou com uma conversa sobre como surgiu essa demanda dentro da Associação e apontou potenciais compradores. Sarah apresentou portfólios de confecções e peças decorativas feitas a partir de elementos da natureza, como sementes, cipós e frutos, para que os coletores tivessem uma melhor noção de como são vendidos esses produtos no mercado. O grupo também listou outras espécies conhecidas por eles com potencial para artesanato, como o fruto dos ipês, do pau santo, da bananeira do mato, sementes de mucuna preta e o tento preto e branco.

A oficina prosseguiu com a prática de limpeza, seleção e secagem de sementes de Adenanthera pavonina (tento carolina), Dioclea violacea (cipó olho de boi) e Byrsonima spp. (murici do brejo). Foram levantadas técnicas de manejo que devem ser adotadas, desde a coleta até o armazenamento das sementes. Para cada espécie, os coletores obtiveram resultados e percepções diferentes.

Secagem das sementes de Tento carolina

Como nenhum deles havia trabalhado com sementes para artesanato antes, eles foram definindo as melhores práticas conforme manejavam as sementes. “O objetivo da oficina foi aplicar as práticas de produção exigidas para artesanato com os coletores e a partir dessa atividade, quantificar os respectivos rendimentos da produção para adicionar ao atual valor de comercialização da Rede, o nosso preço de partida”, comentou Sarah.

A prática foi finalizada com o almoço coletivo na casa da coletora Mauricélia Ferreira da Silva, que serviu frango caipira, abóbora, arroz, uma variedade de feijão jalo e sucos de tamarindo e acerola. Com exceção do arroz, todos os alimentos foram produzidos por ela no lote, demonstrando a diversidade dos produtos da agricultura familiar.

Sementes promovem novas cadeias produtivas

Coletoras Elizete e Mauricélia selecionando sementes de tento carolina

Em 2004 a Campanha Y Ikatu Xingu iniciou a recuperação de áreas degradadas na região Araguaia/Xingu com objetivo de cuidar das nascentes e salvar a água boa do Xingu. Para recuperar as áreas, que na região são maiores, foi necessário o desenvolvimento de uma técnica chamada de muvuca que utiliza o plantio direto com máquinas agrícolas, o que trouxe eficiência e resultados em larga escala. A muvuca nada mais é que uma mistura de sementes florestais.

Mas da onde viriam as sementes? Foi quando surgiu em 2007 a Rede de Sementes do Xingu, que depois também virou Associação (ARSX) que hoje engloba mais de 420 coletores, em sua maioria agricultores familiares e indígenas, que abraçaram a nova profissão para complemento de renda, além de colaborar com a restauração florestal. Em oito anos, entre 2007 e 2014, foram coletados mais de 136,5 mil quilogramas de sementes florestais.

Coletor Acrísio selecionando sementes de olho de boi

A partir da coleta de sementes surgiram novas cadeias produtivas, como os coletores de Nova Xavantina-MT, que perceberam a possibilidade de aproveitar a polpa de algumas frutas para a venda de sucos. Já os indígenas Kisêdjê, da Terra Indígena Wawi, utilizam também o pequi para a produção do óleo, usado na culinária e em cosméticos. Os coletores Paulo e Herta Ehrleich, de Canarana-MT, utilizam parte das sementes de jatobá para a produção de farinha, rica em cálcio, usado no tratamento contra a osteoporose.

Para os próximos passos, a Associação deve continuar na capacitação dos coletores e no estabelecimento de padrões de qualidade por espécie, garantindo novas cadeias produtivas para diversificação da produção local e comunitária.

(Por Rafael Govari e Sarah Domingues de Oliveira Andrade – ISA)

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