A Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) foi convidada pelo projeto Sementes da Vida, da Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana (Aefaja), a realizar um intercâmbio virtual de sementes. O encontro ocorreu via Google Meets na tarde do último dia 21 de setembro. Além de coletores e da equipe da ARSX, estiveram presentes agricultores, equipe técnica, parceiros do projeto, coletores e guardiões de sementes de diversas comunidades do Vale do Jaguaribe, no Ceará, na área de atuação do projeto Sementes da Vida.
Durante a troca, o pessoal do projeto Sementes da Vida, do Ceará e da Rede de Sementes do Xingu, que fica no Mato Grosso, expuseram o modo de trabalhar de cada uma das duas iniciativas, gerando boas ideias e troca de conhecimentos entre os mais de 30 participantes.
“Enquanto convidada para essa troca de experiências, a Rede de Sementes do Xingu cumpre uma de suas missões, a de animar e contribuir na organização de outras redes. Trocar experiências entre redes que têm tipos de organização diferentes, e outros tipos de sementes, é enriquecedor para os dois lados do intercâmbio”, diz Claudia Araujo, gestora de produção e qualidade da ARX.
Entre as principais diferenças entre as duas iniciativas, está a de que enquanto as sementes mais coletadas pelos coletores cearenses são as crioulas para alimentação, os matogrossenses focam na coleta de sementes de espécies nativas para restauração ecológica. Eventualmente, os coletores das duas redes acabam trocando sementes nativas e crioulas em encontros e eventos internos.
Os coletores e guardiões do projeto Sementes da Vida que participaram do encontro falaram sobre um tema de interesse para a Rede de Sementes do Xingu: a importância da preservação das sementes crioulas e não-geneticamente modificadas, além da importância do plantio sem agrotóxicos.
“Quando viemos para o intercâmbio, também estávamos interessados em ampliar o interesse dos coletores e da equipe da Rede de Sementes do Xingu em trazer a experiência de sermos guardiões de sementes crioulas. A Rede realiza feiras de trocas de sementes crioulas entre os coletores durante o Encontro Geral, que ocorre todo ano, mas é possível se debruçar mais sobre isso”, diz Claudia.
Dos pontos em comum, estão as trocas, que fazem parte da linha de políticas públicas; a estruturação das organizações de coleta e armazenamento de sementes, que são parecidas; e os desafios. A preocupação em manter a alta qualidade das sementes durante o armazenamento é a mesma em ambas organizações. Houve uma troca valiosa sobre as experiências dos coletores com as formas de armazenar as sementes e o formato e estrutura técnica das Casas de Sementes.
Troca de experiências sobre as Casas de Sementes
Os participantes do intercâmbio concordaram sobre a necessidade de Casas de Sementes comunitárias — que existem em ambas as iniciativas. De acordo com os coletores do Vale do Jaguaribe, as Casas garantem um estoque ideal para que as famílias tenham autonomia e consigam fazer seus plantios de alimentos sem depender de instituições governamentais, que muitas vezes atrasam o envio das sementes aos agricultores, perdendo a época do plantio.
Sônia Santiago, do assentamento Groenlândia, em Tabuleiro do Norte (CE), conta que está muito grata pela construção da Casa de Sementes em sua comunidade. “Sou filha de agricultores. Espero que a Casa de Sementes inspire a nossa juventude. A gente está muito feliz. Às vezes nós desanimamos com a agricultura. Não temos apoio do governo. Então, essa construção pode animar os agricultores do assentamento”, diz.
“A Caatinga nunca é vista como floresta, mas há muitos recursos nativos que os agricultores sabem aproveitar, e são práticas que podem ser mantidas através da coleta de sementes nativas. É bom saber da existência da comercialização da muvuca”, comenta Daniel de Souza Lemos, coletor do Sementes da Vida, em referência à coleta de sementes nativas para restauração.
Ao fim do encontro virtual, a coletora Francisca Freire ficou muito feliz com as trocas. “Estamos tão distantes, mas trabalhamos com os mesmos objetivos, que é a preservação e a recuperação da natureza. A mãe Terra está pedindo socorro, e temos de fazer um pouco para ajudar. Foi muito proveitoso”, conta.
Sobre o projeto Sementes da Vida no Vale do Jaguaribe

Momento de troca de sementes crioulas entre coletores do projeto Sementes da Vida do Vale do Jaguaribe (foto: divulgação/Aefaja)
O projeto Sementes da Vida no Vale do Jaguaribe é uma realização da Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana (Aefaja), em parceria com a Cooperativa Mista de Trabalho, Assessoria e Consultoria Técnico Educacional (Comtacte), com apoio da Fundação Interamericana (IAF).
O projeto prevê a implementação e o acompanhamento técnico de Casas de Sementes Crioulas na região do Baixo Jaguaribe e na região do litoral leste do estado do Ceará. A Aefaja trabalha por uma educação do campo popular contextualizada, baseada na agroecologia, na pedagogia da alternância, na convivência com o semiárido e no bem-viver.
Sobre a Rede de Sementes do Xingu
A Rede de Sementes do Xingu é uma associação não-governamental sem fins lucrativos, estruturada por povos indígenas, agricultores familiares e moradores de cidades localizadas em territórios da Amazônia e do Cerrado no estado de Mato Grosso, Centro-Oeste do Brasil.
Uma iniciativa formada por coletores de sementes unidos por dois objetivos em comum: a restauração florestal por meio da coleta e comercialização de sementes de diferentes espécies, e a valorização da autonomia dos povos e culturas tradicionais que fazem parte da Rede de Sementes do Xingu — a maior e mais inspiradora rede de coleta de sementes nativas do Brasil.
