Restauração da Rede realiza 13 plantios em territórios de coletores em 2022

27/01/2023 | Ludmilla Balduino - Da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX)
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Quase seis hectares de novas florestas estão germinando a partir de diferentes sementes plantadas em mutirão em três assentamentos e dois territórios indígenas

A equipe de Restauração Ecológica da Associação Rede de Sementes do Xingu realizou 13 plantios demonstrativos de muvucas de sementes em territórios ocupados por Grupos Coletores entre os meses de outubro e dezembro de 2022.

Muvuca é uma mistura de sementes nativas e de adubação verde. Elas são plantadas diretamente no solo que precisa ser reflorestado. A escolha das sementes que vão na muvuca obedecem a vários critérios científicos, como o bioma da área a ser restaurada e os desejos e necessidades socioeconômicas e ambientais da comunidade envolvida.

Participantes de um dos mutirões de plantio preparam a muvuca de sementes para restauração ecológica no assentamento Caeté, em Diamantino (MT) (foto: Ludmilla Balduino/ARSX)

Cada muvuca tem uma particularidade. Em 2022, a Rede semeou diferentes muvucas nos territórios indígenas Marãiwatsédé e Pimentel Barbosa, do povo Xavante, e nos assentamentos da agricultura familiar Bordolândia, Caeté e Manah. No total, foram implementados 5,7 hectares de novas florestas.

Plantios feitos com muvuca devem acontecer na época de chuvas na região, que começa entre setembro e outubro e vai até meados de março e abril. Assim, os embriões semeados no solo encontrarão água e nutrientes para germinar e se desenvolver.

Mão semeia muvuca de sementes em área de restauração ecológica no assentamento Manah (foto: Lara Castagnolli/ARSX)

Algumas são específicas para ambientes da Amazônia, onde a floresta é mais densa, e as árvores, maiores. Outras são específicas para ambientes de Cerrado, onde há mosaicos de floresta intercalados com áreas de gramados e de veredas (também conhecidas como varjões), que só existem nesse bioma brasileiro.

Entre os objetivos em comum dos diferentes plantios, estão ampliar o conhecimento dos participantes, melhorar a qualidade do solo, fortalecer o ciclo da água e plantar matrizes de coleta de sementes mais perto das casas dos coletores.

Coletor Placides Pereira Lima e técnico João Carlos Pereira conversam na hora do lanche durante mutirão de plantio no assentamento Manah (foto: Lara Castagnolli/ARSX)

Plantios em mutirão tiveram alto engajamento dos participantes

O primeiro plantio foi no sítio da coletora Dalvina Barbosa, em 18 de outubro, seguido pelo plantio na área do coletor Placides Lima, no dia 21. Os sítios ficam no assentamento Manah, zona rural de Canabrava do Norte (MT), e ali vivem 24 participantes do Grupo Coletor que leva o mesmo nome do assentamento.

Coletora Dalvina Barbosa prepara área de plantio em seu sítio, no assentamento Manah, Canabrava do Norte (MT) (foto: Lara Castagnolli/ARSX)

“Estou sentindo um sonho realizado. Eu fui bem acolhida, bem atendida, eu e os meninos fizemos o plantio lá, ficou bom demais. Agora é só esperar nascer, crescer, ter paciência e cuidar também. Não é só plantar. O importante é cuidar”, diz Dalvina, dias após o mutirão de plantio, que também contou com a participação dos voluntários Lara Castagnolli e Fernando Boggiani, estudantes de Engenharia Florestal na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Mutirão de plantio no assentamento Manah (foto: Lara Castagnolli/ARSX)

A segunda parada da equipe de Restauração Ecológica foi no assentamento Bordolândia, para o 3º módulo da 1ª Formação de Restauração Florestal com Muvuca, entre os dias 4 e 6 de novembro.

O plantio demonstrativo em mutirão foi realizado em uma área cedida pela Associação Agroecológica Caminho da Paz (Acampaz), e foi a penúltima etapa da Formação, que deve finalizar em fevereiro de 2023, com o monitoramento da área e um amigo secreto.

Participantes do mutirão de plantio na Acampaz, no assentamento Bordolândia, dançam antes de misturar a muvuca de sementes (foto: Iran Junior/Juventude ARSX)

“O que mais me impressionou foi saber que tem muvuca de sementes e ao mesmo tempo muvuca de gente, também. São várias diversidades juntas, pessoas de várias raças, de várias alturas, sementes de várias espécies, umas maiores, outras mais pequenas… Foi o melhor curso que fiz durante esse tempo que eu trabalho na terra. Toda uma vida e eu nunca imaginei trabalhar em proteção à agrofloresta, ao meio ambiente. Eu só tenho a agradecer à Rede de Sementes”, disse o agricultor familiar Alessandro da Silva Costa.

Turma do mutirão posa para foto com placa no pós-plantio da muvuca de sementes na área cedida pela Acampaz, no assentamento Bordolândia (foto: ARSX)

Em seguida, a restauração partiu para a vizinhança do lado oeste do Território Indígena do Xingu. Entre os dias 12 e 19 de novembro, foram realizados sete plantios demonstrativos de muvuca em áreas de diferentes sítios no assentamento Caeté, zona rural da histórica cidade de Diamantino (MT).

Participantes do mutirão de plantio no sitio de Isabel Souza de Oliveira posam em frente à muvuca de sementes momentos antes de ela ser misturada, no assentamento Caeté, em Diamantino (MT) (foto: Ludmilla Balduino/ARSX)

No Caeté estão presentes 18 coletores do grupo Ceiba, que leva o mesmo nome da associação de agricultores familiares do assentamento. No total, os mutirões de reflorestamento e agrofloresta no assentamento Caeté restauraram 1,8 hectare de área.

Muvuca de sementes para plantio no sítio do agricultor Jose Lemes da Silva Filho (o Zé Grilo), no assentamento Caeté (foto: Ludmilla

Balduino/ARSX)

Zé Grilo (camiseta branca) e companheiros de mutirão analisam plantio de muvuca consorciado com mudas em seu sítio (foto: Ludmilla Balduino/ARSX)

“O gergelim já está com flores, já estão nascendo as abobrinhas, as sementes germinaram muito bem. Nossa expectativa é fazer outra área no final do ano. Foi sensacional, muito gratificante”, disse Isabel Souza de Oliveira, integrante de uma das sete famílias beneficiadas com plantios no Caeté, em janeiro de 2023.

Isabel Souza de Oliveira Planta muvuca de sementes em seu sitio no assentamento Caeté (foto: Ludmilla Balduino/ARSX)

Mutirão de agrofloresta no sitio da agricultora Maria Arestida, assentamento Caeté (foto:Ludmilla Balduino/ARSX)

Dois territórios indígenas Xavante são beneficiados

Voltamos ao eixo da BR-158, que fica entre os rios Xingu e Araguaia, no leste de Mato Grosso, para os últimos plantios do ano de 2022, nos territórios indígenas Marãiwatsédé e Pimentel Barbosa, do povo Xavante.

Coletores Xavante da aldeia Ripá, Território Indígena Pimentel Barbosa, reflorestam com muvuca sementes (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

O plantio em Marãiwatsédé, em parceria com a organização não-governamental Operação Amazônia Nativa (Opan) e com o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), foi realizado entre os dias 25 e 29 de novembro na aldeia Cristo Rei e na base operacional da brigada do PrevFogo, Caru, e teve participação da cacica, professora e elo do grupo de coletoras Pi’õ Rómnha Ma’ubumrõi’wa (Mulheres Xavante Coletoras de Sementes), Carolina Rewaptu

Cacica, coletora e mestra Carolina Rewaptu (com cesto) planta muvuca de sementes para reflorestar área na aldeia Cristo Rei, Terrirótio Indígena Maraiwatsede (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

“A muvuca de sementes que plantamos já nasceu aqui, foi muito bom. Nossa comunidade, e as mulheres coletoras, esperamos com esse reflorestamento aumentar ainda mais a nossa coleta de sementes”, disse a cacica.

Mulheres coletoras de sementes de Maraiwatsede fazem agrofloresta com mudas e sementes na aldeia Cristo Rei (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

Participantes do plantio de reflorestamento com muvuca de sementes na aldeia Cristo Rei, Território Xavante de Maraiwatsede (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

Participantes do plantio na área Cairu, do Prevfogo, Território Indígena Maraiwatsede (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

Em Pimentel Barbosa, a aldeia beneficiada com o plantio de uma nova floresta foi Ripá, onde está o grupo coletor de sementes formado por 26 pessoas. Ali, aconteceu o último mutirão de reflorestamento do ano, nos dias 12, 13 e 14 de dezembro.

Piedade Xavante (à frente) e participantes do mutirão de plantio carregam ferramentas e materiais para plantio de agrofloresta com muvuca de sementes na aldeia Ripá (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

Para o povo Xavante, as sementes não apenas carregam a carga genética para o desenvolvimento de plantas, como também são seres vivos que, assim como outros seres, merecem respeito. “Estamos muito contentes com o plantio, e também as espécies que estão lá, elas estão muito felizes porque estão germinando na nossa área”, diz Arcângelo Xavante, elo do grupo coletor Ripá.

Coletores e moradores aldeia Ripá reflorestam com muvuca sementes em área vizinha às casas da aldeia (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

E para a equipe de Restauração Ecológica, que percorreu mais de 3200 quilômetros para implementar essas 13 áreas em 2022, os plantios representam um grande avanço para a Rede de Sementes do Xingu. “A gente está muito satisfeito, porque teve uma participação enorme dos coletores, e a gente vê na prática a importância de plantar mais árvores, de ter mais matrizes próximas às casas, às aldeias… Tem sido uma experiência muito rica, principalmente porque os coletores de sementes já têm um conhecimento muito grande”, conta João Carlos Pereira, técnico da equipe de Restauração da Rede de Sementes do Xingu.

Participantes do plantio de restauração ecológica com muvuca de sementes posam para foto na aldeia Ripá, território indígena Xavante de Pimentel Barbosa (foto: Marcelo Okimoto/Opan)

Planejamento para plantios com muvuca em 2023 já começou

Já estão abertas as novas inscrições de coletores e seus vizinhos para projetos de restauração ecológica com muvuca de sementes em seus territórios.

Participantes mutirão de plantio debatem técnica com João Carlos Pereira no assentamento Manah (foto: Lara Castagnolli/ARSX)

Interessados em restaurar áreas de seus sítios, aldeias, comunidades ou territórios indígenas devem entrar em contato com o João ou a Kamila, da equipe de restauração. Os pedidos serão analisados pela equipe, que fará visitas às áreas indicadas para diagnóstico, análise dos recursos necessários para a restauração, e também para planejar a condução desse trabalho no local com as pessoas envolvidas.

Depois disso, os interessados entram numa lista de espera, e o plantio acontece de acordo com a disponibilidade de financiamento nos projetos. Caso você tenha interesse em apoiar ações como essa, visite a nossa página de doações.

Ruseveth Marques Martins, a mais antiga coletora de sementes do Grupo Ceiba, no assentamento Caeté, cozinha o almoço durante mutirão de plantio de agrofloresta no sítio de Maria Arestides, em novembro de 2022 (foto:Ludmilla Balduino/ARSX)

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